Wilson Bueno
O dom imprevisto da leveza
Não suportando mais as saudades de casa, o jovem monge decide abandonar o mosteiro vietnamita de Monte Rao. Temia, contudo, o jovem Ngai, a oposição até mesmo da própria família, pois o pai, piedoso servidor de um guru mantraiana, não admitia que o filho voltasse atrás na nobre decisão de entregar sua vida ao Buda, o que, no budismo, significa entregá-la a si mesmo. Enfrentar os mestres iluminados do mosteiro, a fim de comunicar a decisão, também não seria tarefa fácil - pensou Ngai, com muito medo, os céus gelados de Rao.
No entanto, em nova noite de insônia e dúvida, o monge-aprendiz adiou sua decisão, sem ousar expressá-la a ninguém, nem mesmo aos iniciantes na ciência do Zen, jovens que, como ele, haviam se decidido pelo Buda, isto é, por si mesmos, com uma veemência mais que religiosa, ardente. Invejava-os Ngai noite e dia. Como poderia ser tão fraco a ponto de não suportar viver longe dos pais e dos irmãos? Que laços indissolúveis eram aqueles? - se perguntou, muitas vezes, um opressivo Ngai olhando as estrelas geladas da noite de Rao.
Notando-o a cada vez mais ensimesmado, nos olhos a sombra do medo, um dos mestres iluminados do mosteiro, justamente o velhíssimo Mestre-Cantor, decidiu indagar de Ngai toda a verdade, preferindo, para tanto, procurá-lo em sua cela na hora mais silenciosa do mosteiro - entre três e quatro horas da madrugada. Neste horário os monges todos estariam dormindo e não haveria pois a menor chance de alguém, percebendo a visita do Mestre ao Discípulo, a alardeasse pelo mosteiro.
É que a rígida disciplina dos mosteiros vietnamitas desaconselha aos mestres ir na direção do discípulo, uma vez que este é que deve, quando necessário, procurar aqueles. Atravessado em anos, o Mestre-Cantor não hesitou - na hora acertada consigo mesmo, foi ter com o jovem Ngai em sua cela, a última do corredor superior do mosteiro, subindo a longa escadaria, à direita. Com o esforço que semelhante caminhada provoca num ancião, claro que o mestre, mais que cansado, bateu à porta da cela de Ngai, arfando, os olhos esbugalhados, quase sem poder falar.
- O que aconteceu? - perguntou, ainda mais trêmulo, um assustado Ngai, insone sobre a esteira. - O Mestre-Cantor aqui, à essa hora - e assim, descabelado, em pânico e sem voz?
Com gestos, já que a respiração difícil o impedia de falar, o Mestre tentava transmitir que estava tudo bem, que esperasse um pouco, mas um agora já desesperado Ngai concluía que o mestre estava nas últimas. O que era aquilo? Vir morrer o Mestre-Cantor justo em sua cela? Não, não era possível. Melhor chamar os monges das celas mais próximas.
Antes que cometesse o desatino, o Mestre-Cantor conseguiu recuperar o fôlego; e não fez por menos:
- Muito me admira, Ngai - confundir cansaço passageiro com o definitivo da morte - falou o Mestre com sua voz ainda fraca.
- Pensei que morrias, Mestre. Juro que pensei. Os seus olhos estavam horríveis!...
- E você, por um acaso, pensou como estavam os seus?
- Meus o quê? Meus olhos? Normais, Mestre... Só um pouco angustiados porque penso em deixar o mosteiro... E este é todo o meu peso...
- Então foi isso que os deixou horríveis.
- Reafirmo que meus olhos não estavam horríveis, Mestre!
- É que você não os viu de fora - olhando-os como é que olhavam, em pânico.
- E o que isto tem a ver com o desejo de renunciar ao Buda?
- São os mesmos olhos, Ngai - cheios de susto.
Daquele minuto em diante, Ngai não teve mais dúvida e passando a ver a saudade como uma dádiva da leveza, deixou para sempre de se angustiar e ali, no belo mosteiro vietnamita de Monte Rao, ao pé da cordilheira, viveu sua prodigiosa vida, devotado ao Buda, isto é, a si-mesmo, segundo alguns, por mais de cem anos.





