O cinemaginário do poeta cantor
Arquivo FolhaRicardo CoronaO poeta Ricardo Corona faz depois de amanhã, 29, na Ybakatu, em Curitiba, a partir das 19 horas, um lançamento duplo - o da revista ‘‘Medusa’’, já em seu quinto número, e o de seu livro de estréia, ‘‘Cinemaginário’’ (Iluminuras, 1999) que modestamente integro, com o texto que a seguir decido dividir com os meus leitores aqui da ‘‘Folha’’. Aí o rumo e a rima.
‘‘Quem tiver olhos de ver que veja, se já não viu - este ‘Cinemaginário’ que aqui se exibe e representa, do curitibano Ricardo Corona, é, senhores, um refinadíssimo livro de poesia. Concentrado, a palavra limpa de uma limpeza quase transparente, ‘clássico’ no que tem de metro e medida, no que tem de decoro, esta palavra em desuso, ‘Cinemaginário’ é um livro orgânico e concebido baixo o pecado bem bom de produzir um livro-de-poemas, cousa assaz diferente de reunir, ao acaso, versos sem data.
Construir um livro-de-poemas é mais do que distribuir a esmo as nem sempre harmônicas flores de estilo. Necessário razão e sabedoria, a meu ver, para que elas com elas não desavenham, e nem desalinhem assim tudo o que se quis como um livro-de-poemas. E este é, de cara, o primeiro trunfo deste ‘Cinemaginário’; existem outros, mas nenhum tão ‘fundante’ quanto este.
Dividido em quatro momentos de celebrada/celerada imaginação (Vortex, Lunares, Tuguso-Manchuriana, Satirlyrics (+ seis para HQ) ), o livro parece aspirar fundamentalmente a um conceito que decifra, e devora, o para além da primeira visada sobre as coisas que será sempre, e apenas, exercício limitante, a do develamento da máscara, e não do que, genuína armadilha, ainda é a máscara da face se bem mais não seja a máscara primeira. Cai o pano. Sabedor do cinemovimento da dízima periódica, mesmo assim, ou por isto mesmo, o poema insiste. Aliás, ‘Cinemaginário’ é um livro para além do ver, posto que perscruta e tateia, e pela teia da palavra, aranha ávida, já envolve o objeto que des-escreve, querendo-o inteiro, pura teima, o gosto insistente de buscar o que é que há atrás da imagem. Assim, podemos dizer que mesmo frente à intenção do grito, as palavras tratam as palavras com delicadeza ainda que para ‘informar’, muitas vezes, o mais rude ou o menos afetuoso. É que as palavras não nascem do chão.
Dos quatro momentos em que se distribui ‘Cinemaginário’, ‘Lunares’ me parece o mais fiel ao que se quis como o ‘desenho’ de um livro-de-poemas e ali está o poema que, em minha opinião, melhor reflete e conceitua toda a obra - ‘Paisagem Narcisista’, com este belo fecho:
‘Eu, de passagem e a paisagem, de paisagem.
Em mim incide o que está depois da paisagem:
oásis, Iemanjá, sereia, miragem.’
À parte o magnífico trato com as palavras, aqui em particular o poeta se declara, à luz do cinemaginário, o buscador do movimento que há por detrás da simpleza às vezes ingênua das coisas, o que há no movimento extraordinariamente repetível da miragem e que por se repetir, ainda uma vez nunca é a mesma e glosa a sua pele inédita sob o sol.
A paisagem estará sempre de paisagem para quem de passagem - e me ocorre que aí Ricardo Corona expressa, em síntese, todo o dizer do ‘Cinemaginário’ cujos ‘poemas-câmera’ já iluminam o que há depois da paisagem - o tumulto da vida se processando em novas paisagens que, por seu turno, pretendem outras passagens adictas ainda de outras paisagens, feito o cine-sonoro sobre a cena muda. Tanto assim que na estrofe imediatamente anterior, o poeta não poderia ser mais claro sobre os ofícios da paisagem:
‘Mas nela meu olhar não se detém,
nenhum clic, espanto, nada.
A memória agora está além,
nem a mais linda imagem é guardada.’
De uma contemporaneidade que o faz, mais que um poeta jovem, o instrumentador afiado de um dizer, do ‘novo’, suas raízes, Corona pontua, não sem malícia e segundas intenções, este ‘Cinemaginário’, com algumas agudas epígrafes - da lua de Laforgue ao pensa/sentimento de Lautréamont, ou, outro modo de epigrafar as coisas, anota de Basquiat todas as ruas, de Jim Morrison perfaz o olho e o risco de acordadíssima tradução-mutante, e dedica a Guinsberg, o (condoreiro) poema que fecha o volume.
Mas Ricardo Corona não se mistura: a sua dicção é de um gosto profundamente pessoal, dificilmente vista em livros de estréia, ainda que contaminada por tudo e por todos, síntese feliz com que o poeta ‘modula’ a sua língua, os ícones devorados até a mais ruminante tortura.’’

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