Wilson Bueno
Novos Velhos Invernos
Foi-se o outono/ só no porta-retratos/ não mudo de ano. O poema oriental é o que melhor traduz o sentimento deste domingo, último dia de mais um outono que nos andou a vida com a graça das folhas ressecadas pela geografia do chão. Amanhã, um velhíssimo inverno de mais de cinco mil anos, rude ou gentil, não importa, nos dirá que o tempo passa e junto com ele a nossa vida provisória. Nenhum motivo para desesperança ou melancolia, - indispensável acrescentar -, não a propósito do inverno, a razão destas linhas, mas da vida, que, sendo só de passagem, nem por isto é menos graça e encanto.
Sou do tempo dos pregões polacos, manhãzinha neblina, com as carroças puxadas por parelha de burros nas ruas de Curitiba. E quem já me viu a cara, sabe - nem tão velho... O tempo é que andou ligeiro, invernos e outonos, primaveras e trovoadas, modificando a paisagem. Impossível esquecer, naqueles junhos memoriosos, a fala engrolada da polaca velhusca e de róseas bochechas, a cabeça amarrada num lenço, arengando, desde longe - Olha a pinhón. A pinhón nóvinha. A pinhón. Juntavam vizinhos e crianças em torno da carroça abarrotada.
Os invernos eram também mais invernos na crueza com que nos fustigavam os seus ventos e as suas geadas. Esclarecem os meteorologistas que, depois de El Niño, nunca mais as coisas foram as mesmas, sendo, também ele, não deixam de acrescentar, o responsável por um seu sósia, ou melhor dizendo, sósia, no feminino - La Niña, capaz de desequilibrar, para baixo, a temperatura. Corre o boato de que este inverno veio para valer - com médias de cinco a dez graus a menos na comparação com os invernos dos últimos cinco anos. Será? A meteorologia tem se revelado falha até para anunciar os humores do dia seguinte... Mas tudo é possível e a previsão do tempo se tornou um dos fascínios humanos.
Há agora, sabemos, até um canal pago, o 25, da Net, exclusivamente dedicado ao tempo - o tempo em Hong Kong e o tempo na Abissínia; a lama em Detroit e a enchente na Indonésia; onde neva e onde estia; ventos e chuvas; sol, trovoada, boas nuvens - tudo se combina e a vida passa entre ursos polares e peixes marinhos. A previsão do tempo, no Weather Channel, chega a ser um exagero - com (erótica) antecedência ficamos sabendo se chove ou faz sol não daqui a um, nem a dois, mas daqui a três, e se duvidar, até quatro dias, nas principais cidades do mundo. Não há como sair de casa, mesmo com sol, e não levar debaixo do braço o guarda-chuva se há prognóstico de instabilidade ao cair da tarde. Os prevenidos, sabemos, não se molham. É para isso que servem os avisos.
À época da polaca com a carroça cheia de pinhão, na Curitiba dantanhos, adivinhava-se o tempo com modesta antecedência de, digamos, no máximo, um dia, e ainda assim, muitas vezes o prognóstico falhava, para horror de conterrâneos inclinados a certificar-se das graças ou desgraças do tempo, o dedo no vento. Lembro o Estacho, figura folclórica da minha rua - para saber se chovia, ou se vinha mais frio, molhava o indicador na língua e o espetava no ar por quase meia hora. Pelos invernos, duro de frio, o Estacho, do propósito, não arredava um segundo, por mais que a gente o chamasse e o sacudisse. Muitos anos depois é que fomos saber que o Estacho, além de folclórico, brinquedo dos piás da rua, sofria de uma doença grave chamada catatonia.
O Estacho não há mais e nem há mais a velha polaca apregoando o pinhón nas manhãs antigas. Mas, encanto de existir no vento, nos é dado viver, mal ou bem - provisórios, sim, mas nem por isto menos extremados - até setembro, aqui outra vez, os invernos azuis de Curitiba.





