Dez anos sem Leminski
Amanhã, 7 de junho, faz dez anos que o poeta Paulo Leminski morreu. A título de lembrança do escritor e amigo ausente é que trancei as linhas que aí seguem a propósito de um aspecto pouco lembrado de seu fazer textual - o seu ‘‘narrar’’, a sua ‘‘prosa’’ que, ele próprio, a meu ver, não soube avaliar na exata extensão. A prosa de Paulo Leminski, sua prosápia, o visgo de seu prosoema são excelências de poeta, o poeta original, fabulista e fabuloso. O narrador, esta ‘‘categoria’’ literária, tal como a conhecemos hoje, veio muito depois. No princípio era só a poesia cantada em prosa e verso. E o mundo, além de inaugural, ou por isso mesmo, era bem mais interessante.
E é neste núcleo original, é desde esta fonte, a fonte generosa em que molecularmente se inscreve a fábula, prosa que se quer pura poesia, que idéias-conto, idéias-romance ou idéias-ensaio se repensam em Leminski feito uma pedra e seu sol. E não é outra, não só a prosa de ficção do autor de ‘‘Catatau’’, como também, ressalte-se, a sua prosa crítica e ‘‘biográfica’’ - distinguidas todas por um contrato com a palavra, que exige dela, da palavra, mais do que lineamento, esboço, estrutura de frase a comunicar o limite da idéia.
Des-limita a idéia a prosa que se quer para além do mediatismo das palavras que se contam pelo telefone, as gastas palavras utilitárias, vício dos romanções sub-fonsequianos que proliferam entre nós. Não por acaso Paulo Leminski estréia, em livro, em 1975, com um bólide imaginativo-desconcertante, o ‘‘Catatau’’, autonomias de um escritor curitibano, o seu mais longo e proliferante poema, a saga cannabis-canibal (para se apropriar de uma qualificação de Augusto de Campos) de Renatus Cartesius, nome latino com que René Descartes se traveste na piração brasílica pela qual desequilibra razões e des-razões, certezas e in-certezas, o comedido e o disparate, a disciplina e seu aceso avesso.
Dinamitando o próprio engessamento cartesiano, frente ao novo-maravilhoso, Cartesius, pela língua e pela poesia da língua, sua palavra, dá do Brasil a melhor verbo-linhagem, a melhor linguagem. Impossível rever no curto espaço de um artigo de jornal, toda a radicalidade de um investimento literário feito este, raro na história de qualquer literatura, inda mais a nossa, o mais das vezes presa a esquemas mofinos, acanhados, de representação textual.
Dois ou três livros de versos depois, a primeira biografia - a de Cruz e Sousa. E nem ela é preto no branco, apesar do título. Pura epifania, é pela prosa que Leminski faz deste pequeno grande livro, um livro de poemas - tons, entretons, os sanguinolentos crepúsculos mênstruos de nosso decantado Simbolismo. E o mesmo se dará, daqui por diante, com ‘‘Matsuó Bashô, a lágrima do peixe’’, ‘‘Jesus a.C.’’ e ‘‘Leon Trótski, a paixão segundo a revolução’’, autênticas psicanálises poético-existenciais, devassidão e rigor frente a vidas previamente vividas na paixão igualmente vital do poeta.
Com ‘‘Agora é que são elas’’, de 1984, o seu autoproclamado ‘‘falido’’ romance, Leminski se equivoca - fez de novo, a melhor poesia. Enredo e verbo, arquitetura e entrecho, pegada e sabor, ‘‘Agora’’ é um dos mais belos livros da ‘‘prosa’’ brasileira, prosopopéia de personagens a esmo pelas páginas, com um criador de estruturas (Propp) correndo atrás de criaturas como num filme de Spielberg, ou num desenho animado. E há a festa que nunca saberemos se festa era e que tipo de festa, batizado ou bar-mitzva, casamento ou féretro, tributo a Beckett, nosso mestre, ainda que seja Cartesius quem espere Godot.
Tributo ao narrar sem conta, ao narrar inumerável que a novela das oito e o noir-urbano sub-fonsequiano, por exemplo, definitivamente não dão conta. Com ‘‘Anseios Crípticos’’ (1986), ‘‘Guerra Dentro da Gente’’ (1988) e esta obra-prima que é ‘‘Metaformose’’ (1994), Paulo Leminski deixa clara sua filiação ao que há de melhor e mais criativo dentro da grande tradição que vinda de Homero deu, para nosso gáudio, em Borges - poeta, sim, mas com que prosa.
O resto é literatura, ou um cachorro latindo de manhã.

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