Wilson Bueno
Vida violenta
As lágrimas do menino kosovar no campo de refugiados da Macedônia, em horário nobre de TV, dão conta de um fato muito antigo, mais antigo ainda que o histórico entrevero entre sérvios e albaneses, a crer em Roger Dadoun, filósofo francês que acaba de lançar no Brasil, pela Difel, um livrinho em todos os sentidos precioso - A Violência/ensaio acerca do homo violens.
O menino kosovar chora porque perdeu tudo, perdeu inclusive o que não tinha e o que nunca teria - a possibilidade de ser tratado pela vida com um mínimo de decência. Resta sempre, contudo, pedir a Deus que nos livre e guarde, mas acontece que Deus é, Ele próprio, segundo Dadoun, uma máquina de produzir violência.
Suprema blasfêmia, mas o filósofo vai às origens, vai ao Gênesis primevo e recolhe de lá, sem hesitar, a violência de Deus, violência que a tudo antecede, inclusive e sobretudo a violência dos homens, estes seres frágeis e permanentemente defendidos do que em Deus, meu Deus!, é puro açoite.
France PresseA fabulosa lenda bíblica das origens não poderia ser mais esclarecedora - no princípio era a harmonia e a paz transbordantes até que Jeová põe tudo a perder - expulsa Adão e Eva do Paraíso, condena-os à vergonha e ao opróbio, castigo divino de crueldade exemplar, atingindo a mulher no ato biológico fundamental do parto - Eu multiplicarei tua dor e teus partos/ Na dor parirás teus filhos. E não está aí inscrever a Vida, doravante, e para sempre, no puro terror de ser? O homem não é menos cruelmente atingido no que lhe é essencial - Maldito seja o solo por tua causa/ No sofrimento te alimentarás/todos os dias de tua vida./ Só comerás o teu pão/ com o suor de teu rosto (...) E que isto significa senão transformar o trabalho, lúdica ferramenta humana, única talvez capaz de nos conferir transcendência, em vilania e maldição eternas?
Roger Dadoun vai além, ao lembrar que tudo poderia ser festa e fruição do espírito, entre Caim e Abel, não fosse a recusa de Jeová em aceitar as oferendas do primeiro, o que lhe agudizou o ciúme e o frustrou profundamente, ao ponto de o homicídio inaugural da história humana se constituir num fratricídio. Que amor é este do Deus capaz de levar Caim a assassinar Abel? - se pergunta o filósofo. E continuadamente ainda nos perguntaremos baixo os desertos dias.
Para Dadoun não é o ser humano que precisa evoluir, mas o Jeová de látego em punho, gemente em sua ira, capaz das maiores atrocidades - como esta, de humilhar suas criaturas, sem dó nem clemência. Em qualquer gravura de representação do gênese bíblico o que vemos é o casal primevo batido de vergonha, olhos baixos, a própria imagem da angústia e do aviltamento moral.
Aduz ainda o autor de A Violência que, ao contrário do Buda, por exemplo, o Jeová do Velho Testamento não poupou nem os bichos - fez com que perecessem, não sem indizíveis sofrimentos, no Dilúvio Universal, do qual somente se salvaram os animais escolhidos por Noé, um casal de cada espécie. Se, para a maioria das religiões, o pecado humano está na razão direta da fúria divina, por que o ódio do Deus frente aos bichos, irracionais, inocentes?
Muitas e muitas trevas depois, o Messias talvez resgate, na figura não do Cristo mas de Jesus, a doçura e a delicadeza, que em vão pediu-se ao Pai, pelo tempo afora, e que Ele insistente e perversamente negou a suas criaturas, relegando-as à orfandade mais extrema.
Há um sermão herético, citado na História das Religiões, de Ferdinand Aguefoy, que é um primor - o tempo inteiro o pregador grita e vocifera contra a solidão em que Deus nos abandonou, pela eternidade. E o mais terrível - nem por isto o sermão deixa de constituir sermão de amor, do alucinado e acerbo amor de uma criatura por seu Criador, mesmo sob a violência inata de jamais ser atendido no que o amor tem de troca e correspondência.
O menino kosovar chorando no noticiário da TV, nos desonra como humanos e nos põe de novo frente a outros paradigmas de violência e engodo, igualmente lembrados por Doudon - as táticas de extermínio político, a limpeza étnica, e o terrorismo. Em todos, o homem, à semelhança do Deus inaugural, alcança impensáveis requintes de crueldade. Macacos não matariam jamais com tamanho e orgulhoso engenho. Pior a violência dos afetos destruídos, o aniquilamento moral e o fim do espírito.





