Wilson Bueno
A Ciência dos Koans
ReproduçãoKoans são miniestórias, lúdicas anedotas minimalistas para explicar (explicar?) a filosofia, a senda ou o caminho, como queiram, da Iluminação, no zen-budismo. Algumas vezes líricos, outras pífios como um peixe entrevisto (se entrevisto como sabê-lo peixe?) e, quase sempre, imantados de intensa poesia. Uma poesia que, mambembe ou imperial, sábia ou tola, não importa, diz-se a si própria como um destino.
E capaz, esta poesia, de desvendar a chave para os mistérios do Buda, não como quem abre uma porta, mas como quem fecha.
É que para o Zen não há fechar, e tudo, inclusive a morte, esta nossa extremada precariedade, se abre para a paisagem. Ninguém morre, a gente canta, anda, pela casa de novo anda e esplende.
Assim a vida do Buda e alguns, só alguns, das centenas de koans que venho colecionando vida afora, e que mais uma vez decido partilhar contigo, amado e cruel leitor. Cruel, pero capaz de entender isto, por exemplo, se isto, na melhor tradição búdica, fosse para entender.
Não dá pra entender:
O Discípulo pergunta ao Mestre:
- Mestre, o que é o Zen?
Segurando um vaso, o Mestre, sem palavras, deixa que o vaso caia e no chão se despedace. O Discípulo acredita ter encontrado a resposta:
- Então, Mestre, isto é o Zen?
E o Mestre:
- Não. Isto não é o Zen.
Há outros koans, contudo, que me parecem criados com fins quase didáticos, não fosse, paradoxalmente, a didática o maior de todos os crimes e talvez o maior de todos os excessos que alguém poderia cometer contra o Zen. Padece de (falta) de sentido, na busca da Iluminação, toda e qualquer moral da história, tal como nós, ocidentais, aceitamos que fábulas, poemas e haicais encerrem em si uma conclusiva e dispensável mensagem.
O Mestre ensinava o discípulo a meditar.
- Procure tirar este turbilhão de sua mente. De início, jogue fora todos os pensamentos, todos. Fixe-se apenas numa rosa. Só uma rosa.
Depois de inúmeras tentativas, o Discípulo vibra:
- Consegui, Mestre! Estou pensando só e exclusivamente numa rosa! Uma rosa amarela. Consegui, Mestre! Consegui! Vejo a rosa!
- Não. Você ainda não conseguiu nada.
- Como? Como que não, Mestre? Só tenho na mente a rosa.
- O exercício ainda não terminou.
- Como assim?
- A rosa está bem nítida em seu campo de visão? Você a vê e sente nitidamente?
- Sim, Mestre. Sim.
- Então agora tire daí a rosa.
Há koans tropicais, como não?, nascidos de alguns de nossos gênios pátrios, Millôr sobretudo, mas nenhum, até hoje, superior a este do eterno Abelardo Barbosa, o Chacrinha:
Eu não vim pra explicar! Eu vim pra confundir!
Ou o de Manuel Bandeira, arriscando uma classificação adulta de poeta menor:
- Com muito trabalho, talento e persistência alguém pode alcançar o título de o maior de nossos poetas menores.
Não torcia, claro, pelo improviso, o mágico andejo de Pasárgada, mas realizava aí, na prática, e sem fantasia, uma verdade búdica, saber e sabor ao melhor dos koans.
Os exemplos são muitos e se multiplicam mas não poderíamos encerrar estas magras linhas, esquecendo os que se referem às crianças, estes capinadores naturais da magia, des-contaminada - ainda - dos tortos e avessos do (insensato) exercício lunar com que adultos se atrapalham.
Os dois irmãos topam com um pardal morto no jardim. O mais velho, 8 anos, se aproxima, piedoso, e com um pedaço de papel ergue o passarinho, entre os dedos, pelo fio de pernas enrijecido.
- Olha, tá morto...
O caçula, 5, protesta, cheio de razão:
- Não. Não tá morto, não, seu bobo! Não tá vendo que ele só saiu dele um pouquinho e já volta?...





