Wilson Bueno
Mais um deus índio
Segundo A. E. Elker, zoólatra profissional, nenhum como o Hesatí - monstro composto de pegajosa lama, na estação das chuvas, e de barro endurecido, coberto de aflitivo pó, durante todo o verão -, nenhum para gerar, no imaginário índio, uma reverência medrosa e, o mais das vezes, cheia de culpa. Existe o AÀairú, uma espécie inverossímel de diabo, mas igual ao Hesatí não há e nem nunca haverá.
Os primeiros nativos a falar do Hesatí, e a invocá-lo com esta espécie de pânico comum a quase todos os índios, segundo revela o pesquisador dinamarquês, foram os Yguaratés, tribo nômade que vagueia do Chaco paraguaio ao extremo norte da Bolívia. Trazem a testa marcada por um minúsculo sinal de argila vermelha, no exclusivo propósito de não serem confundidos com os Yretés, que - gritante exceção - não temem o Hesatí, antes o rezam e dançam feito ele fosse um brinquedo.
São os Yguaratés, entretanto, o objeto de estudo do zoólatra da prestigiosa Universidade de lborg que, anote-se, dedicou a eles pesquisa de campo raramente levada a efeito nos meios acadêmicos - durante todo um tórrido verão sul-americano andou com os índios, noite e dia, dia e noite, atrás do Hesatí. O suposto encontro com o monstro, ocorrido quando já pensava desistir da empreitada, foi uma coisa em todos os sentidos comovente.
Curioso observar que o Hesatí é representado da mesmíssima maneira tanto pelos Yguaratés quanto pelos Yretés, com a diferença fundamental de que os primeiros crêem o monstro capaz de soprar no rosto do índio desprevenido, a mortal poeira de sua boca ferruginosa, enquanto os segundos não acreditam em absoluto nessa possibilidade. Para os Yretés, isto seria impensável - o Hesatí é um monstrinho brincalhão e muito oferecido e se algum acidente causou, até hoje, debite-se isto à sua inextricável falta de jeito, e jamais a uma calculada malvadez que lhe assanhe o coração menino. Tirando este pequeno detalhe, mais comportamental do que qualquer outra coisa, o Hesatí é representado por Yguaratés e Yretés do mesmo modo - em tudo semelhante a um pequeno elefante, não possui, contudo, destes, a característica tromba, que dá lugar, nele, a uma pequena boca de lábios quase humanos. É por ela que os Yguaratés acreditam que o Hesatí sopre, desde a entranha, o tormentoso pó que tanto temem; os Yretés, pelo contrário, julgam que o monstro por esta mesma boca ria a sua brincante risada. De resto, é todo dele o seu elefantino desenho - as mesmas grandes orelhas de abano, os inescrutáveis olhos, pequenos demais para o seu tamanho, e a grande pança abaolada, além do fino rabo. Não fora a boca e o barro, nem monstro seria o Hesatí - uma só lama na estação das chuvas ou ressequida argila por todo o verão.
Referindo só de passagem os Yretés que vêem no Hesatí um monstro humilde, A . E. Elker se detém mesmo é na impactante concepção que os Yguaratés costumam ter do monstrinho barroso. Embora o venerem do amor mais exaltado, temem dele o imprevisível modo de ser.
Descrevendo, sob o efeito da bebeção da ayuasca o inenarrável encontro dos assustados Yguaratés com o Hesatí, próximo à fronteira do Paraguay e Bolívia, em memorável verão, a não menos de 40 graus à sombra, Elker se confessa, mais que maravilhado, rigorosamente surpreso - o Hesatí avança para os índios, alegremente, abano e orelhas, a marcha trôpega de um elefantinho, e esfregando-se neles, excessivo, desajeitado derruba um por um, e em todos esfrega a boca oferecida, de onde não sopra peçonha ou poeira coisíssima nenhuma; melhor, cheira e acaricia, brinca e morde de leve os índios caídos, com a ternura de animal que houvesse reencontrado, muito tempo depois, os desgarrados membros de seu bando.
Nem assim, contudo, os Yguaratés se dispõem a vislumbrar no Hesatí o que não seja o temerário veneno de sua poeira que, quando soprada nos olhos, torna um Yguaraté no indesejável oposto - um Yreté sem mácula, rolando na lama seca com um Hesatí vivo, feito fossem, de pó, dois incalculáveis amantes.





