As cartas de Paulo Leminski
Acaba de sair pela Editora 34, a reedição de um livro em todos os sentidos precioso - ‘‘Envie Meu Dicionário/ Cartas e Alguma Crítica’’, (272 págs, R$ 27,00, São Paulo, 1999 ) - reunindo a febril correspondência do poeta Paulo Leminski ao grande amigo, e também poeta, Régis Bonvicino, no período compreendido entre 1976 e 1981. Como participo da obra com uma ‘‘notícia’’ do que estas cartas me causaram, no arrabalde profundo, desde a primeira vez, permito-me - de novo à vossa revelia, fiel leitor - dividi-la inteira convosco aqui neste espaço de jornal.
A ela, pois, e a suas conjeturas de estrela, na mais acesa solidão. Bem antes do e-mail e ao tempo em que não se fazia o pleno uso que se faz hoje do telefone, no Brasil, dois poetas tramavam e teciam, nas asas do correio aéreo nacional, um diálogo em todos os sentidos essencial. Dois poetas, de gerações distintas, um em seu bairro polaco de Curitiba e o outro entre a fumaça e os cinzas da metrópole paulistana, cifravam, quase em segredo, mensagens, gritos, uivos, coplas e canções, pensatas e haicais, na prática obstinada desta arte em tom menor que é - e continuará sendo, à grande - a epistolagem, que o cânone gramatical quer pedantemente como epistolografia, só para não dizer, de todo, o que de mágico este ofício encerra.
Arquivo FolhaDe 1976 a 1981, duas datas e um só momento da vida nacional, tempo obscuro em que falar de árvores era quase um crime, o poeta Paulo Leminski e o então novíssimo poeta Régis Bonvicino se decidiram um pelo outro com uma veemência de quem, nascido para a palavra, fizesse dela, da palavra, mais que ofício, uma paixão de raiz. E é esta paixão o que se lê aqui, da primeira à última letra deste dicionário vivo, interlocução acossada - umas vezes epifânica, outras vezes bandida, pelo que mina e corrói, pelo que demole e questiona o monótono entôo do coro dos contentes.
Do começo ao fim do epistolário que ora se publica, a palavra se pergunta por sua des-razão de vigir, feérica, em meio ao tráfico humano. Cinco anos (1976-1981) - nem tão distantes assim, e já tão diferentes de nossos melancólicos dias, ali onde a voz, convertida em palavra, expressou, grafadas em meras folhas de papel, as turbulências e a lucidez muita vez ácida deste que é, sem favor, um dos mais importantes poetas brasileiros, e que pensou a palavra, toda a vida, querendo dela o sumo e a entranha. Aqui estão, de novo, a palavra e o seu rumo. Fruto de sínteses e de fronteiras, creiam, isto aqui, pela palavra, é um livro de poemas.
Ao longo das 68 cartas do livro, o cachorro louco Paulo Leminski é, mesmo na hora mais acerba, puro conluio, palavras-amantes ao amigo distante, posto que - imposição do ‘‘gênero’’ - o diálogo epistoleiro será sempre diálogo de escolha e de afetos, intercâmbio sumamente amoroso. Ninguém manda cartas de amor para um inimigo.
O poeta Régis Bonvicino, com a colaboração meticulosa de Tarso M. de Melo, não fez por menos, na autêntica reedição destas ‘‘brasas através’’ - ampliou as cartas, muitas delas publicadas com cortes na edição anterior, juntou outras que permaneciam inéditas e anexou, ao volume, novos ensaios e reflexões, esparsamente publicados na imprensa, e só agora reunidos, sobre alguns dos melhores momentos ‘‘póstumos’’ de Paulo Leminski - de sua lavra e da de outros autores - feito assim um contraponto, outra vez amoroso, destinado a oferecer, do poeta curitibano, a visada mais ampla e mais generosa.
Cartas-poemas, perfeitos fac-símiles do que foi na madrugada aturdida da Cruz do Pilarzinho, a inquietação tamanha e o sonho aceso baixo o céu da noite curitibana. Poemas-cartas, poemas-balas, deflagrados no escuro. Raros caligramas, o que decididamente são, guardados dentro de um envelope feito se guarda o poema antigo, de opala e nácar, no bolso do sobretudo. O que dizer destas cartas se, outra vez aqui é a noite, e as palavras como que andam, lagartas ávidas, aspirando a uma existência que não é mais a dos dicionários, senão a de verbetes vivos?
Prodigioso ilusionista, o poeta Paulo Leminski não se cansa - não bastam os anos setentas, insuficientes e precários, o poeta os transcende, via a brasa de suas cartas-vivas, e triunfa, ainda uma vez, raspando o terceiro milênio. Álacre luminescência, estas cartas, tanto tempo depois parece ouço-lhe a voz saindo pela boca.

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