Um estranho deus índio
Os belicosos Anaorás, do extremo sul argentino, identificam no ar um pequeno deus de quatro patas - o Ivitú (Aragem, na língua deles), que, embora monstruoso, horror e cascos retorcidos, é um ente destinado em exclusivo a mitigar, dos índios, a dor da saudade.
Todo de brisa e vento, o Ivitú não se dá a conhecer senão no breu que o céu faz antes das grandes tempestades, e isto depois de penoso ritual a que se vêem obrigados os índios. Aí então ele se recorta inteiro, hórrido desenho de negras nuvens - as patas para dentro, de unhas encrespadas e cheias de pêlo, a grande pança recoberta de estrias, e em cada anca, nas duas, a má-formação de uma espécie de asa em carne viva. Com cara de cavalo e a cabeça do tamanho de uma cabeça de girafa, soma ainda, à gritante desproporção, o delgadíssimo pescoço que, ao formar no céu, logo se esfuma, aumentando-lhe a feiúra. Acéfalo, afirmam contudo os pesquisadores que - devidamente invocado - o Ivitú sustenta, por muito tempo ainda, o restante do corpo - colado ao céu como se nunca dele tivesse despregado.
ReproduçãoMas não se pense seja fácil topar com o Ivitú, mesmo na estação das chuvas, quando é frequente o mau tempo, e o céu, de modo invariável, se acha inteiramente apto para tatuar no aéreo de sua matéria escassa, o descalabro de um Ivitú vivo. Não, senhores, o Ivitú se esconde nas frestas, sopra aflito desde o Norte, o ano inteiro, e, dizem, alguns, por vezes muge, o balir de animal desamparado clamando no escuro. Invisível - o que, atentem, não significa nenhuma garantia de que possua, nesta hora, forma ou cor - dá pena ouvir, insistente, toando nas frinchas, o pequeno deus anaorá que livra os homens da saudade mais imensa.
Para que o Ivitú aconteça, anotam os zoólotras, é preciso que, na primeira minguante, o candidato a arrancar da alma o sentimento incômodo, saia aos campos, o ano inteiro cobertos de neve, e ali, ao pressentir o menor ruído, corra atrás dele e o agarre com as mãos, pegando o ruído pelos cornos feito quem detém um carneiro bravio.
Ocorre que os índios tomados pela agrura da saudade, geralmente afeta à separação amorosa, enfraquecidos pela melancolia e os presságios, dificilmente se prestam a atirar-se pelos campos de neve, na treva da primeira minguante, atrás do Ivitú feito ele fosse a última quimera. Guardam-se nas choças úmidas, fracos, chorosos, batidos pela falta que faz a falta de tudo. Inconsoláveis, e ainda mais sozinhos, pensam no Ivitú, dia e noite, noite e dia, transformando-o, pelo obsessivo desse pensar contínuo, de hórrido monstro de cascos retorcidos, em pequeno deus cândido, um quiçá fauno menino.
E é então que o índio, sem perceber, reúne forças, deixa a choça, mesmo que a débeis passos, e vagando pela trevosa minguante, a céu aberto, ouve um ruído que, sem vacilar, agarra com a força das duas mãos e monta nele e com ele vai ao céu do outro dia. Ainda não é o Ivitú, mas já é dele o seu preparo.
Aí sim, obedecido o ritual, e desde que seja manhã, e ameace de novo a chuva fria, o Ivitú se insinuará no céu - resgatado do que guincha no vento - todo de nuvens, medonho, recalcitrante, cheio de pêlos, o horrível, o acerbo, o infetuoso, e postando-se debaixo de seu aseiro, um legítimo Anoará, se capaz de suportar visão tamanha, jamais vai sentir saudade do que foi carne da carne a lenda errante.
Numa coisa, porém, atestam os zoólatras, o Ivitú se revela completamente falho - não alcança aliviar a saudade dos que já morreram, mesmo a quem tenha um Anoará amado do amor mais fundo. Esta espécie de saudade, para passar, advertem os índios, só o tempo. Às vezes, nem isso.

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