Wilson Bueno
As estrelas do céu
Arquivo FolhaDesde o início da semana não se fala, nos meios científicos, em outra coisa - pela primeira vez na história da exploração espacial, pesquisadores deram de cara com um sistema planetário em tudo idêntico ao nosso velho e decantado Sistema Solar. Nada mais nada menos do que uma estrela, à semelhança do Sol, com três planetas, em princípio, girando ao seu redor.
A estrela do novo sistema foi batizada de Úpsilon de Andrômeda, nome em si propenso à poesia, não fosse o apego dos cientistas aos atos e fatos rigorosamente comprováveis, o que, convenhamos, tira um pouco a poesia de tudo. Segundo as primeiras medições, o arremedo de Sol possui 3 bilhões de anos e se encontra a 44 anos-luz da Terra.
Isto me pôs a lembrar uma distinta senhora, que foi muito minha amiga, e que tendo morrido aos 94 anos, insistia comigo que não há como as estrelas - seja pela distância ou por suas inenarráveis idades. Difícil ficarmos sabendo de uma estrela com menos de 1 bilhão de anos, a não ser as chamadas supernovas que só muito recentemente passaram a ser refletidas nas lentes dos telescópios.
E nem são o que podemos chamar inteiramente de estrelas - massas de gases em formação, e que mesmo assim nunca possuem menos do que alguns milhões de anos. Já nascem velhas as estrelas - dizia, no poema antigo, o grego indomável, sem saber, aquele tempo - doce ignorância - de que matéria os astros do céu, tidos como lume dos deuses, olhos acesos da noite ancestral. Contar deles os zilhões de anos, sejam quantos forem, ou descrever-lhes os gases e a temperatura são os frios códigos de agora com que mapeamos os objetos celestes, sem notar o que de terrível em sua beleza aflita.
Que aflição, senhores? Estrelas são só massas gasosas deambulando o espaço sideral, responderia o astrônomo atrás da tela de seu computador de última geração. Nem luneta se usa mais, agora que estrelas não passam de intricadas equações químicas à disposição dos homens, estes atrevidos senhores do universo.
Há tanta precisão e nenhum encanto nas jornadas astrônomas de hoje em dia que a formidável descoberta do novo sistema planetário ocorreu, acreditem, de modo quase simultâneo, com o astrofísico de Cambridge, Robert Noyes, reiterando, na coletiva à imprensa para anunciar a boa nova que a coincidência dos estudos é mais um indício de que os planetas realmente existem.
Descobriram o novo sistema planetário, a Universidade Estadual de San Francisco, o Centro Harvard-Smithsoniano para Astrofísica e o Observatório de Alta Altitude - todos, como não poderia deixar de ser, sediados nos Estados Unidos. E os três informam, de novo em uníssono, que o sistema pode ter outros planetas menores, coisa impossível atualmente de ser detectada já que a humanidade não dispõe ainda de equipamentos capazes para verificar, no vasto cosmo, planetas iguais ou inferiores ao tamanho da Terra.
A minha amiga nonagenária é que estava certa - quando chamavam atenção para o milagre de sua exuberante longevidade, com o agudo senso e a lucidez que não a deixou nunca, vituperava - que milagre qual nada, a carne envelhece com uma precocidade que nem sequer raspa a eternidade. E concluía, inesquecível - Os humanos não duramos o piscar de uma estrela.
Agora a minha amiga é uma estrela. Mas, aferrada à vida, isto ela nunca fez questão de considerar, e se alguma vez considerou, deve tê-lo feito, por tudo que sei dela, com insolência de velha dama e um esgar de nojo.





