Wilson Bueno
Nenhum poema é banal, mesmo o mais encabuladoO editor da revista argentina envia cá para o estúdio a carta de um leitor chileno, dirigida a este escriba e endereçada à redação da Cuadernos Girondo, de Buenos Aires, que me publicou lá, final do ano passado, umas surradas reflexões.
O leitor se chama Alberto Sormani e vai de cara me interpelando - como ouso chamar, num dos textos, o santo de sua devoção, Pablo Neruda, de poeta menor? Como menor, se detentor do Prêmio Nobel de Literatura, e mais, muito mais - personagem central de livro e filme que, não faz muito tempo, ganharam a simpatia de todo o planeta?
Calma, nem foi isso o que, em profundidade, quis dizer sobre Neruda e nem o (comovente) O Carteiro e o Poeta, seja o de Skármeta ou o de Radford, apesar da concentrada beleza de um e de outro, ganharam, ou vão ganhar o planeta, o que, claro, lamento, sabendo que o mundo será sempre o nosso velho mundo avesso à poesia e onde, sabemos, ela não conta - é rito in-útil de seres divididos entre o ócio e a delicadeza.
Para nosso leitor chileno, que me parece um desses devotos da poesia como não se usa mais, nenhum poeta é menor, pois sabendo a poesia alta expressão humana, como conceber, ainda segundo ele, que um poeta seja menor? Menor face a quê? Menor justaposto a que grandezas? Para concluir, inteligentemente, ainda que com um achado meio gasto, que la emoción poetica no se hace com la cinta métrica.
O melhor de toda esta renga é que ou Don Sormani não me entendeu as ficções bandalhas ou por isso mesmo, por serem bandalhas, não consegui - o que também não é novidade - formular o que desejava e me fazer entender do modo como pretendia.
Mas o que tem tudo isto a ver com o nosso encontro dominical cá nesta folha de jornal - há de perguntar o eventual leitor destas frequentes mal traçadas, esquecido de que invariavelmente nos anima aqui a conversa não sem esperança de tudo o que a poesia é capaz, e é capaz de um quase nada que chega a ser monstruosamente tanto. Por mim e por ti, tolerante leitor, por quem os sinos dobram? Só o poema é capaz de sugerir a nós, na mais intensa vigília, o eco que este bronze faz.
Ao citar Pablo Neruda, na ficção pedestre publicada pelos Cuadernos Girondo, não lembrei dele nenhuma vez como poeta menor, o que aliás seria um elogio e não uma maldição, mas, isto sim, como capaz de entender - e fabricar, por quê não? - o poema sem-importância, o poema tão absolutamente desimportante do poeta menor, que tem o dom, só ele, o poema desimportante, de chamar a atenção, de gritar se preciso for, por uma compreensão atenta e carinhosa. O poema aí é quase o uivo de um afogado.
Lembro Clarice Lispector de A Legião Estrangeira, já citada aqui uma vez, a propósito da graça e da pureza de origem do verso banal, do texto que de tão pobre, molambo e frágil é quase um sem-sentido mas que, pelo dom humilde de sua natureza, forma ao lado da estrofe mais sublime, um quem sabe Ovídio ou uma Ilíada ou o mar de encantos de Alices worderland, pelo que vos interpela, não importando o furor estético, as cordas do coração.
O que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto do modo carinhoso do inacabado, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão - diz a nossa maior escritora, no trecho lembrado acima, desvelando um segredo que só para ela era segredo e, para nós, o puro óbvio - a devoção afetuosa, que nela foi o seu maior trunfo, pelo inútil de cada um.
Não há poema, mesmo o mais cínico, por exemplo, que nasça canalha, mesmo porque irrompe, ovo da origem, com a branda intenção de ser poema e só aí já precisa que o tomemos nas mãos, com cuidado e paciência, para que não se quebre, para que não se espatife no chão feito uma porcelana da China.
Nenhum poema é banal, mesmo o mais encabulado e adolescente; nenhum poema é menor - todo poema é um retrato, com maior ou menor sucesso, de alguma coisa em nós da qual somos apenas portadores, e que nem mesmo nós sabemos o que seja. Não importa se vítima de nossa obsessão artesanal ou da busca do mais raro e do mais precioso do melhor inventor, um poema será sempre um poema - pequeno, tímido, escondido na dobra de vosso casaco como um cisco trêmulo, uma coisa assim à toa, mas tão à toa, tão rigorosamente à toa que é capaz de incendiar todo um crepúsculo e vos tornar, cuidado!, aéreos.
Alberto Sormani tem razão: um poema, ou um poeta, pode ser maior que o planeta.





