Reprodução‘‘Vim aqui porque, não sendo oriental, não consigo atingir o satori’’Há muitos e muitos anos atrás, ao tempo dos tibetanos no país dos tibetanos - pois até a bela Lhasa, a capital do Tibet, agora é dos chineses - existiu, na região mais escarpada do país, um mosteiro destinado exclusivamente a ‘‘formar’’ monges na quase impossível ‘‘ciência’’ do zen-budismo. Entre adeptos do zen das mais diversas partes do Tibet, que ali viviam em perfeita comunhão, havia um, em particular, que tinha chegado de muito longe, os pés machucados e funda ferida em cada palma das mãos, que logo cicatrizaram.
Narra a lenda que este monge não possuía entretanto só isso de diverso dos outros adeptos do zen que viviam no Mosteiro de Ngu’ya - ele tinha os olhos azuis, barba e cabelo compridos, e era de família católica, o que constituía, isso sim, constante motivo para brincadeiras e até mesmo para zombaria sobretudo entre os monges mais jovens, que o chamavam de ‘‘Jesus’’. Uns perguntavam pela cruz, outros queriam saber de Maria e os que haviam estudado a comovente história do cristianismo insistiam em saber dele como é que ressuscitara dos mortos ao terceiro dia.
Jesus era uma pessoa de paciência infinita, e o nome dele evidentemente não era Jesus, mas Alain, francês nascido em Paris, e que na busca desesperada de um sentido para a vida, acabara no Tibet, ainda antes de os comunistas tomarem o poder em Pequim.
Depois de muitos meses e de esforçadíssimos exercícios, Jesus/Alain chegou à severa conclusão de que, por não ser oriental, jamais atingiria o satori, por melhor que se empenhasse como vinha se empenhando na difícil prática do zazen (a meditação búdica) e que, naquele mesmo dia, retornaria à França onde pensava entrar para a ordem de São Bento.
Antes de deixar o Mosteiro de Ngu’ya, contudo, Jesus/Alain foi ter com Yen Yin, tido por todos como um acabado sábio, na concepção que os budistas têm de sábio, isto é, aquele que através de sucessivas iluminações atingiu a ‘‘condição suprema’’, uma espécie de eternidade no provisório e de extrema provisoriedade no eterno, se é que me faço entender.
Antes mesmo de que proferisse qualquer pergunta, o velho monge foi logo dizendo a Alain:
- Me diga uma coisa, meu filho, por que você não tem, como todos nós, os olhos azuis?
- Como? - perguntou sem entender um estupefato Jesus/Alain. Se existe uma coisa que vocês não têm é justamente olhos azuis! - contestou veemente nosso cristão errante. Olha, mestre, deixemos de brincadeiras...- continuou. Vim aqui justamente porque, não sendo oriental, não consigo atingir o satori com a facilidade com que vocês o fazem... Vou procurar o Deus de meus ancestrais, só isso...
Levantando as mãos que repousavam, serenas, uma em cada joelho, Ye Yin exibiu, com a graça da pomba e o imprevisto da serpente, a palma de ambas - de novo um mais que perplexo Jesus/Alain viu com puros olhos de ver que em cada uma delas havia uma funda cicatriz.
- O que é isto, mestre? Eu também as tenho, olha, em ambas as mãos...
- Ah, é? As tuas cicatrizes também são calos do cabo da enxada, para dar de comer aos que aqui chegam de longe?... Então você pode se considerar um dos nossos, ainda que não tenha os olhos azuis...
Naquele momento Jesus/Alain compreendeu tudo e, segundo a lenda tibetana, viveu no Mosteiro de Ngu’ya como mestre-lavrador, ainda por muitos e muitos anos, até desencarnar, em avançada idade, bem antes da anexação do Tibet pelos comunistas.

mockup