Arquivo FolhaÉ extremamente intrigante perceber como os primeiros anos após a descoberta do Brasil, pelo que têm de escabrosos, estão mais para contos de terror do que para a História propriamente dita. O recente e estimulante ‘‘Náufragos, Traficantes e Degredados’’, de Eduardo Bueno, sucesso editorial da Objetiva, tenta compilar, através documentos de época, os acontecimentos relativos às primeiras três décadas após a chegada, a esta insensata terra, do muito luso nosso avô Pedro Álvares Cabral. Contudo não esclarece quase nada, perdendo-se num cipoal de citações e exercícios imaginativos sobre os albores do século 16 entre nós.
Mas em meio a tantos relatos, mais próximos da lenda do que dos acontecimentos, impossível desconhecer os que vão narrados na Chronica Brasilis, documento tido por muitos como fraudulento, dando sua origem no início dos seiscentos, mas, segundo alguns, forjado em meados do século 19 por Frei Damião de Santa Luzia, para vingar-se da Corte, e impresso provavelmente em Coimbra, na tipografia de um tal de Seleno Ciprião (ou Simeão) Barreiro (ou Parreira), de quem a História só guarda, e guarda mal, o nome. É exemplar pelo que devassa da cruenta alma de nossos antepassados.
Segundo modernos pesquisadores, imputar fraude ao valente franciscano foi uma maneira de a Monarquia tentar pôr em descrédito o festival de perversidades arrolado na Chronica Brasilis, da qual, diga-se de passagem, só há dois exemplares - um na Torre do Tombo, em Lisboa, e outro na Biblioteca do Vaticano, havendo dúvidas no entanto se esta última possui mesmo o livro entre os seus milhões de títulos.
O número de cópias a rigor não importa - o relevante na Chronica Brasilis são as notícias que nos dá sobre os albores dos quinhentos cá na terrinha. Senhores, de cara, e em princípio, os acontecimentos que expõe são, em todos os sentidos, degradantes para qualquer brasileiro. De ontem ou de hoje.
Só para se ter uma idéia, assim que criado o sistema de capitanias hereditárias, em 1532, com vistas à colonização do Brasil, e mormente na Capitania de São Vicente (dividida, aliás, em dois lotes, um dos quais ia do rio de São Vicente até a Ilha do Mel, na entrada da baía de Paranaguá), tudo era permitido aos colonizadores - desde escravizar índios até estuprar ‘‘as nativas novas e virgens’’ ou, mesmo, pasmem!, em caso de degredados ‘‘já habituados ao canibalismo aprendido dos silvícolas’’ realizar tal prática ‘‘uma vez que as victimas não constituam almas lusas’’. Isto tudo - literalmente - com as bênçãos de Deus e o beneplácito del rey, nosso Amo e Senhor.
Até para quem justifica uma antropofagia aqui, outra acolá - afinal eram os primevos tempos de nossa existência, ainda hoje incongruente... - não aceitará contudo o que a Chronica Brasilis relata, mesmo que sob a pena fraudulenta (será mesmo? Há quem diga que os dados são todos autênticos...) de Frei Damião de Santa Luzia, posto que retrato fiel, ainda que impiedoso, da desterrada alma luso-brasileira - ‘‘se uma silvícola emprenhar de seu senhor sem que este queira o fruto de seu ventre, poderá arrancar de dentro da selvagem o feto com as mãos’’. Tal indecente édito é igualmente acompanhado das bençãos de Deus e dos ‘‘bons augúrios del Rey’’.
Tivéssemos espaço e estômago, aqui ficaríamos a referir outros horrores e monstruosidades permitidos, e praticados, pelos primeiros colonizadores da Terra Nova, mas como o espaço é pouco e o estômago sensível, anote-se, na qualidade de fecho desta crônica lúgubre, só uma estatística - apenas no ano de 1552, foram transportados para Portugal, 12.507 papagaios, 7.800 macacos, 547 antas, justificando-se o envio de tão grande número de animais, pelo simples fato de que de 70 a 80 por cento deles morriam na travessia...
Verossímel demais, gentil leitor, para se constituir apenas numa provocação do rebelado Frei Damiao de Santa Luzia.

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