Wilson Bueno
O dragão, monstro mítico, parece habitar o que o sábio alemão Carl Gustav Jung chamou um dia de o inconsciente coletivo da humanidade. Numa de suas viagens pelo Brasil do século XVII, o destemido botânico holandês Kriven von Laugfk espantou-se ao deparar, entre os primitivos Anambé, em suas profusas malocas à margem do Tocantins, próximas à baía de Marajó, com a descrição minuciosa de um animal em tudo semelhante ao dragão, tradicionalmente associado à zoolatria do Oriente.
Revela Laugfk no seu já clássico Tratado Mitológico da Terra Nova, para alguns historiadores pioneiramente editado em Leipzig, por volta de 1650, que os Anambé tinham o hábito bem pitoresco de embriagar-se três dias seguidos, geralmente na lua nova, ingerindo para tanto uma bebida fermentada a partir do aipim, chamada uaipiá. Segundo o cientista holandês esta a única via de acesso para entrar em contato com o Tatã, narrado pelos índios como um bicho surpreendentemente dócil desde que não provocado no que possuía de mais sagrado - o ciúme que, segundo os próprios selvagens, ardia dentro dele feito uma bola de fogo no coração.
No geral, tal bola de fogo, classificada como tataraviú, que significa chama e também brasa, em tupi-guarani , permanecia a maior parte do tempo inativa, claramente visível bem no centro do grosseiro peito do monstro - enorme lagarto da altura do angelim novo (cerca de três metros e meio), com um par de asas de morcego, recobertas de hórridas verrugas, grande cauda serrilhada, de repugnante aparência, e cara de cavalo.
Este último detalhe que poderia passar despercebido para muita gente, não fugiu à perspicácia detalhista sobretudo dos comentadores subsequentes de Laugfk - como poderia o Tatã ter a cara comparada a do cavalo, se os índios brasileiros não conheciam o cavalo? Alguns pesquisadores debitam a falha descritiva da anatomia do Tatã como erro dos tipógrafos da época, considerando, outros, contudo, que Laugfk conseguira introduzir, coisa pouco provável, alguns cavalos, em sua expedição ao Alto Tocantins, e que os Anambé, impressionadíssimos com os equinos, resolveram homenageá-los emprestando, deles, ao monstro entrevisto na embriaguês da uaipiá, a sua comprida cara, de redondos olhos e úmidos dentes.
Cara de cavalo ou não, o impressionante no Tatã era a sua doçura, desde que não provocado, como já se disse, no que possuía de mais crasso - o ciúme, o que acontecia quando os índios demasiado bêbados insistiam em penetrar a gruta onde, comentavam, ele passava quase todo o tempo a sonhar sonhos de miraculosa artesania, amando-os como se fossem amantes. Ao tentarem roubar dali os sonhos do Tatã, coloridos todos e mais embriagadores do que a uaipiá, o intruso era invariavelmente incendiado, transformando-se numa horrível espécie de carvão humano. Muitos, nos casos mais extremos, eram reduzidos a um montículo de cinza.
Os Anambé que evitaram a todo custo, e esforço, se aproximar dos sonhos do Tatã, hipnóticos e de quase incontrolável apelo, por sua excessiva beleza, descrevem o monstro com toda a fealdade que lhe caracterizava - da pele crestada de dragão às medonhas asas de morcego. São ciosos em observar contudo que, em sua doçura de cão, ao avistar um estranho, o Tatã levantava a grande cara para o céu e mugindo um mugido de pura carícia, vertia dos olhos abundante lágrima que era o modo de dizer que não o temessem no seu horripilante aspecto - o Tatã, assim, era só a ternura de um dragão com a suprema vergonha de sua monstruosidade inventada.





