Wilson Bueno
Wilson Bueno
Um Luso e Confuso Amarantes
José Castello, autor, entre outras, de uma bela biografia de Vinicius de Morais, há cinco anos morando em Curitiba, acaba de chegar de mais uma de suas viagens internacionais - agora pelo circuito Toronto-Londres-Lisboa, em merecidas férias de suas atividades junto ao jornal O Estado de S. Paulo.
E, desta feita, Castello chega com uma saborosa novidade colhida precisamente em Lisboa, e mais precisamente ainda, no histórico bairro do Chiado - assim meio ao acaso, topou lá com nada mais, nada menos do que Cesário Amarantes.
Sim, senhores, encontro em todos os sentidos histórico com o velho e luso Amarantes que, em meado dos sessentas, viveu entre Curitiba e Joinville, às voltas com a sua Reclame, agência publicitária que fez escola no Paraná, e também em Santa Catarina, ainda que a maioria dos jovens publicitários a desconheçam completamente.
Acho que só o Jamil Snege lembra dela pois não foram poucas as crueldades perpetradas pelo sádico do Turco contra o dócil e ingênuo Amarantes. Em nossos dias, quem há de se lembrar da Reclame se sobra a mística dos Washington Olivetto e dos Nizan Guanaes, nestes nossos túrgidos dias tupiniquins?
José Castello, evidente, também nunca tinha ouvido falar do Cesário Amarantes e muito menos da Reclame, pois, como disse, está somente há cinco anos vivendo entre nós, ainda que já tenha sido contracapa da revista Caras/Paraná - ele e o seu cocker spaniel Gaudí, nosso afilhado. Foi o Amarantes quem se apresentou ao Castello, reconhecendo-o brasileiro, pelo sotaque, numa pequena livraria do Chiado. Desses pasmos e encantos da vida, quase teve um enfarte o bom Amarantes, ao sabê-lo mais, muito mais que brasileiro - curitibano honorário...
Castello confessa que o tipo já lhe havia chamado a atenção pela grotesquerie de uma cabeleira branca à Carlos Gomes e uns bigodes idem, a imitarem, fartos, o compositor pátrio. Convidado pelo Amarantes a um café próximo à livraria, a primeira coisa que quis saber de Curitiba, o velho luso, foi se aqui ainda vivia o João Manoel Simões, poeta prolífico e ardente, qualificativos que, claro, não lhe desmereceram nunca o talento.
Como nosso José Castello nunca recebeu um livro autografado do Simões e pouco tempo lhe sobra para ler os poetas da província, disse-lhe que não conhecia o João Manoel mas que tinha uma enorme admiração pela ácida prosa de nosso Jamil Snege. Aí o Amarantes deu um pulo. Um pulo, não, dois - O terrível do Turco ainda vive lá, ó gajo? - diz que foi de chofre e de inopino a pergunta do Amarantes.
Com a resposta afirmativa de nosso viajante, Cesário Amarantes sentiu firmeza e revelou-se inteiro - Pois, olha, tudo o que sei de Curitiba é pelo globo. Por alguns segundos, Castello pensou tratar-se do jornal carioca, mas logo o próprio Amarantes explicou melhor - Vivo de adivinhas, meu caro. Leio num globo de cristal, egípcio, e lhe tenho muitas novas sobre a cidade que tu deverás correr a dizer logo ao povo de lá.
Castello mordeu-se de curiosidade, principalmente quando o Amarantes, sendo curto e grosso, duas das melhores qualidades do ex-publicitário luso, foi logo falando: Amigo, prepare-se. Neste 1999 muitas coisas interessantes acontecerão, mas nenhuma mais do que a transferência de domicílio de um poeta cego para a cidade. Poeta cego? - estranhou Castello. O último poeta cego foi o Jorge Luis Borges... - divagou. Não, há outro. Vive no Embu, periferia de São Paulo. E deverá se domiciliar em Curitiba, neste ano de 1999.
Aí Castello animou-se informando ao Amarantes que, além dele próprio, Castello, quem tinha transferido residência, mais recentemente, para Curitiba, tinha sido o concreto Décio Pignatari. Amarantes foi mais longe: Pena eu não poder ferir a ética, revelando nomes, mas também um saxofonista negro deverá tomar Curitiba como sítio.
Castello quis ao menos uma dica - Brasileiro mesmo? Ou Americano? Não, lusitano. Lusitano? Isto mesmo, mas não lhe digo o nome. E o que mais lhe disse o globo para 1999?- animou-se Castello. Uma grande revista de arquitetura há de fazer sua sede, não em Curitiba, mas em Joinville. Por que, Joinville- quis saber o nosso turista. Porque Joinville é pólo industrial de minha Santa Catarina - derreteu-se o Amarantes, saudoso do vizinho Estado. E sabem quem vai dirigir a revista? Quem? Quem? - perguntou duas vezes o Castello. Aquele arquiteto que gostava de poesia - o Jaime Lerner. Ainda anda por lá?
Aí que recordei inteiro o Amarantes, a cabeleira e os bigodes - e lembrou-me, vivo na memória, o jovem Jaime andando às madrugadas de Curitiba, o bom Cesário Amarantes ao lado, recitando, notívagos e líricos, os dois, os sonetos de amor de Bocage.
Ai, vida.
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