Discípulo e o mestre, velhíssimo, caminham pelas florestas dos Himalaias. Ao se acercarem de um pequeno regato, de não mais que três metros de largura, próximo a um povoado, deparam-se com uma mulher gordíssima que chora. Dirigindo-se a ela, o mestre pergunta:
- Por que a senhora está chorando?
- Preciso passar à outra margem do regato, mas não consigo, tenho os pés feridos e os meus 120 quilos não ajudam. Do outro lado há uma árvore com sombra e aqui o sol me queima as costas.
O mestre, com muito esforço, despreza o taurino vigor do jovem discípulo e, com extrema dificuldade, transporta a mulher para a outra margem.
Continuando a marcha, o mestre vai à frente e o discípulo segue atrás com uma dúvida que o atormenta, mais e mais, a cada quilômetro. Por que o mestre não pedira a ele que passasse a mulher de 120 quilos para o outro lado do regato? Cinco, dez, vinte quilômetros, segue com o discípulo a angústia das sempre mesmas dúvida e inquietação.
Quatro horas e 30 quilômetros depois, não suportando mais, extenuado e até arfante pela indagação obsessiva, o discípulo ousa:
- Mestre, não entendi. Por que assim já em tão avançada idade, transportastes aquela mulher tão pesada para a outra margem do regato? Por que não permitiu que eu o fizesse? Por quê? Para que servem minha juventude e os meus músculos?
- Transportei a mulher por um minuto e três metros. Você a vem carregando por mais de quatro horas e há mais de trinta quilômetros!
Outro koan de raro fascínio é este, curto e grosso:
Ensinando meditação (zazen) ao discípulo, o mestre pede que ele se imagine com um arco. A sessenta metros, o alvo. Como atingir, com máxima precisão, o centro do alvo?
Depois de esforçados e complexos exercícios, o discípulo explode em alegria:
- Consegui, mestre! Consegui atingir o alvo! Foi quase impossível
mas vejo nitidamente em minha imaginação a flecha cravada no centro do alvo! -
- Não, você não acertou o alvo!
- Como? Como pode dizer isto se não podes ler minha imaginação e o meu pensamento?
- Teu pensamento e tua imaginação não os posso ler, realmente, mas sei que errastes o alvo porque o arco que lhe dei para imaginar não tinha flecha.
Em outro koan, ainda, bastante difundido, sobretudo entre os monges andarilhos do Tibet, o discípulo tentando colocar o mestre em incontornável embaraço, arma uma pergunta aparentemente irrespondível:
- Mestre, um homem está pendurado num abismo apenas por um galho que já vai cedendo pela força de seu peso. Com um pequeno esforço, voltaria à margem mas é que ronda esta margem um tigre faminto e feroz. Entre o tigre e o fundo do abismo há, próximo ao galho, enorme cacho de uva no qual se enrola uma serpente. Então eu lhe pergunto: que deve o homem fazer para escapar com vida?
- Muito simples, discípulo - deve matar a serpente e comer as uvas.
Hoje, excepcionalmente, publicamos a coluna de Wilson Bueno nesta página.

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