Wilson Bueno
Dos cadernos do sertanista Sérgio Oliveira, retiro um outro monstro indígena, além do cândido kwiuvé, já detalhado neste bestiário, que os primitivos kraôs veneravam - é o jaguapitã - cachorro vermelho em tupi-guarani.
O jaguapitã possui um par de olhos de ouro raiados de sangue e é como se coubesse neles uma impossível paisagem.
Nenhum parentesco com as paisagens terrestres, as paisagens todas curvas refletidas nos olhos abaolados do jaguapitã macho. Visões encantadas, ilhas de outros mundos, rios de mel.
Tirando este detalhe francamente essencial, o corpo é o de um cachorro simples. Só que de um vermelho rubro e muito intenso, quase cantante.
Os kraôs, ainda segundo o sertanista, têm no jaguapitã uma fé cega - dessas que amolam a faca até o fio cortar o vento. Nem poderia ser de outro modo - ele, o jaguapitã, é, já em si, o alimento e motor da Fé, pois só aparece para quem está necessitado Dela, sobretudo aos índios que, acometidos de irremediável engano, acabam abandonando a tribo e se enfurnando nos perdidos da Floresta - batidos de susto e grito.
E é por isso que ver um jaguapitã constitui tarefa difícil, quase impossível, pelo simples fato de que os jaguapitãs - antes que os desvelem a nossa curiosidade - são azuis e facilmente se confundem a cor do dia.
Basta que um, somente um desses índios sem esperança, não mais retorne, para que de novo se dance no centro da maloca as louvações dos primitivos kraôs ao jaguapitã - o jaguara cor de sangue, cujo olhar fulvo, carregado de paisagem, passeia e insistente brinca de serviçal de Deus no azul mais ancho.





