Quem contava esta estória-chiste era o nosso saudoso compadre Manoel Wambier, fumando seguidos Bensons & Hedges, bebericando a sua invariável vodka num minúsculo cálice de cristal da Boêmia, e rindo-se muito do que no ser humano é falácia e teatro, representação e engodo.
Um homem está para atirar-se da amurada da ponte Rio-Niterói. Os carros páram, gente desce deles e todos, um pouco temerosos, aproximando-se do quase-suicida, tentam demovê-lo da idéia.
Há, entre outros, o garotão queimado pelo sol das praias que insiste - ‘‘Ô, cara, tu é um cara saradão. Para que se matar, cara?’’ Há o advogado meio teso num terno e gravata - ‘‘Que é isso, amigo? Olha só para mim, com este sol e eu aqui, tendo de ir trabalhar de terno e gravata e nem por isso estou pensando em tirar a própria vida!’’ E há até um padre, que sai de uma kombi e clama: ‘‘Filho, desce daí, filho. Deus não perdoará nunca este ato impensado, filho.’’
Nisto, guinchando os pneus no asfalto quente, freia um minúsculo Gordini e de dentro dele desembarca, com muito sacrifício, uma velhinha varada em anos. Claudicante, caminhando com dificuldade, a velhinha se aproxima perigosamente do suicida. Este, da amurada da ponte, berra - ‘‘Se a senhora chegar aqui, eu me atiro. A senhora vai ser a responsável pelo meu fim... Não diga depois que eu não avisei.’’
Ignorando solenemente o apelo, a velhinha, passos limitados, devagar se aproxima mais e mais, sem dizer palavra e como se nada estivesse acontecendo.
Temendo que fosse surda, o advogado, braços abertos, coloca-se à frente dela e a impede de seguir - ‘‘Não, não, vovó. Ele está decidido...’’ Tenta vazar de um lado, tenta de outro e percebendo que não conseguirá ultrapassar a barreira que o advogado interpõe para que não se aproxime, a velhinha dá um berro na direção de nosso quase-suicida - ‘‘Idiota! Canalha! Você é ou não é o meu genro?’’ ‘‘Genro? Eu? Acho que a senhora está enganada. Eu sou o Nicanor.’’ ‘‘Ah, você é o Nicanor? Que pena, pensei que fosse o meu genro, o Amarildo.’’ ‘‘Não, sou o Nicanor, e quero morrer... Quero morrer, vovó.’’ ‘‘É? Quer morrer? E por que não morre?’’ ‘‘Tô com medo de me atirar...’’ ‘‘Medo do quê? De se atirar?...’’
Distraindo o advogado com o súbito diálogo, a velhinha consegue transpor a barreira e chegando bem junto da amurada, é cortante, surpreendente e final: ‘‘Olha só, seu energúmeno. É assim!!!’’ E puxando o quase-suicida pelo braço derruba-o no asfalto e o cobre de bengaladas por todo o corpo - ‘‘Da próxima vez vê se não engana e se atira mesmo. Canalha! Velhaco!’’ No chão, seguro pelo padre, o surfista e o advogado, ele ainda reverbera - ‘‘Como canalha, velhaco? Eu não sou o Amarildo, seu genro, vovó...’’ ‘‘Por isso mesmo, Nicanor. Por isso mesmo, idiota, que você é um canalha! O meu genro foi mais homem - se atirou mesmo, aqui, deste mesmo lugarzinho...’’ ‘‘Ai, ai, ai...’’ - estabana-se o quase-suicida fortemente impedido de se levantar do chão pelos três extenuados voluntários.
A velhinha reentra no Gordini, engata uma vigorosa primeira e sai chispando ponte afora, não sem antes, da janela, mofar de todos - ‘‘Agora fiquem aí, seus idiotas! Tratem de ficar aí segurando esse canalha, que nem se matar consegue...’’

mockup