Wilson Bueno
Desde terça-feira última com o início do novo ano lunar chinês, estamos sob o signo do Coelho, ou do Gato, como querem alguns. Diverso da astrologia ocidental, orientada pelas constelações estelares, e pelos planetas, o horóscopo chinês compreende ciclos de doze anos, marcados cada um deles por um animal.
Assim, para os que, neste século, nasceram em 1915, 1927, 1939, 1951, 1963, 1975, 1987 e os que nasceram ou vão nascer neste já insensato 1999, o Coelho é referência, símbolo e guia.
Dizem os horoscopistas vulgares, com sua obsessão divinatória - que tanto horror inspiravam a Nang Chen, sábio do cantão oeste da China, século II A.C. - que o Ano do Coelho privilegiará sempre, sobretudo os que são diretamente regidos por ele, com a excelência de conquistas em várias áreas, mas nenhuma mais do que a da vida amorosa. Com um contraponto amargo - dormir sobre as vitórias afetivas poderá trazer aos Coelhos desgraças inomináveis.
Vendendo vaticínios, numa errância pelas estradas digna de nômades autênticos, os horoscopistas vulgares sobreviviam de suas adivinhações, o que torna ainda mais consistente a incansável oposição que lhes impunha o sábio Nang Chen. E que explica, ainda hoje, porque a astrologia ocidental é quase toda centrada em prever o futuro, traindo, igualmente, o fundamento encantado desta ciência antiga.
A função do horóscopo é revelar-nos a nós mesmos, religando-nos à alma coletiva de um zôo fantástico e maravilhoso. Herança divinizada daquele primeiro Buda, que cinco séculos antes de Cristo, convocou todos os animais da criação, prometendo dividir com eles a sua mansidão. Pela ordem, compareceram o Rato, o Búfalo, o Tigre, o Coelho, o Dragão, a Serpente, o Cavalo, a Cabra, o Macaco, o Galo, o Cão e o Porco. Não surpreende que este tenha sido o último nem que o primeiro tenha sido o Rato. Dois extremos de uma mesma insaciabilidade...
Assim, os nascidos sob o signo do Coelho, objeto aqui desta digressão, a crer em Nang Chen, são pessoas corteses, avessas a eventos ruidosos tanto materiais quanto do espírito e extremamente tolerantes. Caracterizam-se sobretudo pela capacidade de dirimir querelas com sua vocação inata para a diplomacia e o bom convívio. Estas as possíveis virtudes dos Coelhos que, em contrapartida, são movidos pela ansiedade, a excessiva timidez e uma obsedante incapacidade para sustentar, de modo adequado, suas conquistas.
Harmonizar Yin e Yang é portanto a tarefa que se impõe, não só aos Coelhos, mas a todos os outros signos do horóscopo chinês, e atividade ainda mais espinhosa - a de reger, com a sapiência de um Buda, as cambiantes interpenetrações entre todos os demais animais do horóscopo.
Também em nossa discutível astrologia, sabemos, esta a proposta mais desafiadora. Nang Chen chega a sugerir que a única fórmula para atingirmos tal mansidão será a mesma de quem busca o satori, a nunca assaz perseguida iluminação búdica.
Para tanto nos propõe, o velho sábio, um exercício aparentemente impossível: olhando nossa imagem num lago, só deveremos nos apartar dela quando sentirmos nitidamente que, em vez de espelhada na superfície do lago, dali ela se mova e ande sobre as águas.
Quem se habilita?





