Wilson Bueno
Já ultrapassamos, ufa!, o Natal e o Réveillon, as extenuantes férias de janeiro e já vamos ao meio das de fevereiro com seu invariável festival de litorâneas sandices, biquínis, sungas, crianças ansiosas e babás sôfregas. Resta esperar pela revelação das fotos da temporada em que, mais uma vez, de prosaica roupa de mergulho, o caçula estará todo dândi e todo prosa, impávida gracinha debaixo do guarda-sol amarelo, entre outros instantâneos florais - como aquele em que triunfas uma barriga cinquentona absolutamente ridícula, ou aquele outro ainda, bem idiota, em que apareces com os amigos, sem camisa, num brinde de chope frente ao etílico mar de Matinhos.
Envelhecestes um ano mais, porém ainda não envelhecestes de todo, posto que resta esperar pela Quarta-Feira de Cinzas, quando enfim, e só enfim, o ano deverá começar - depois do Carnaval, como é de praxe e nos reza desde sempre o nacional calendário.
Que me perdoem as solitárias vozes melhor entusiasmadas por este arremedo de Carnaval, que é o famigerado Carnaval curitibano, mas o dito tríduo momesco cá na Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais é, senhores, mais que triste, tristíssimo, e põe a nu a ridicularia canhestra de carnes brancas sobrando pelos maiôs mal-ajambrados, canelas magras e também brancas, muito brancas, vencendo as poças da Marechal Deodoro. Em todo Carnaval curitibano chove ou faz frio, quando não acontecem as duas coisas juntas.
Não nascemos para o samba, o pandeiro, a cuíca e o ganzá. A própria música pop que produzimos, não no Carnaval, mas ao longo do ano, nem mesmo esta, apesar dos esforços e de alguns grandes talentos isolados, (vide Alice Ruiz, Itamar Assumpção, Carlos Careqa) parece, como o teatro da cidade, uma praga - não emplaca. Vergonhoso, mas na hiperpovoada MPB só conheço um clássico legitimamente paranaense - As Mocinhas da Cidade, dos saudosos Belarmino e Gabriela, e ainda assim, examine o frio leitor, um clássico caboclo, um clássico rural, dificilmente lembrado. Quanto ao nosso teatro, meu Deus, chega a ser um vexame de anonimidade branca e esvaziada de talento ou repercussão, mas este já é outro papo, para além de todo Carnaval.
Paulo Leminski tinha uma teoria no mínimo intrigante para o irremovível naufrágio do Carnaval das araucárias, ele que era negro por dentro: em meados do século passado, pressionada pelos ordeiros habitantes da Vila, nossa vereança houve por bem baixar severa lei proibindo depois das 18 horas - pasme, gentil leitor - toda e qualquer manifestação dos escravos, sobretudo na forma de barulhos e ruídos, como os dos atabaques com que os negros sublimavam o banzo e ritualizavam suas crenças. A malta por certo seguia os crioulos nas festas de sacolejo, cachaça e bumbo. Bumbo, leitor, bumbo - ainda não haviam inventado a mulata Globeleza...
Tio Lema era um poeta de teses e tesões, frequentador assíduo da seção de obras raras da Biblioteca Pública, poliglota e fino polemista, mas não acredito que a sua teoria desse conta do excelso mistério que é o de não haver Carnaval em Curitiba, ainda que se esforce em dizer o contrário meia dúzia de gatos pingados.
Em meio a cenário tão melancólico, sobra, claro, o Hélio Leites e sua tchurma: o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos do Botão. Mas ela é tão ínfima e tão mínima, feita de carretéis, palito e caixinhas de fósforo, que não passando na avenida é como se tivesse passado e, passando, é como se não passasse. O que, claro, é mais, muito mais que um samba-enredo.
Bem, até o ano 2000!
Evoé.
Hoje, excepcionalmente, publicamos a coluna de Wilson Bueno na página 7.





