Há muitos e muitos anos atrás, vivia no coração da floresta, um monge encantado. Tendo atingido a iluminação búdica, preferiu que seu corpo terreno vagasse, invisível, solto, aéreo, do modo e jeito do vento. Numa tarde de verão, convertido em pura brisa, decidiu o monge-aragem brincar à margem do rio, entre libélulas, borboletas e a generosa sombra de uma paineira. E qual não foi seu espanto, ao topar com um antigo e muito amado discípulo, sentado a uma pedra, justo sob a paineira, ali onde era o trecho mais fundo do rio.
Ainda muito jovem e muito atormentado, o discípulo, que se chamava Nepu, chorando intenso e alto, pretendia se suicidar, preparando ali, na solidão da floresta, uma morte sem volta nem remédio. Sem poder reconverter-se, de imediato, à forma humana, o velho monge serpenteou, doce aragem, pelo pescoço de Nepu, numa maneira de lhe chamar a atenção para o quanto, na vida de um ser humano, um bom vento já é o melhor dos milagres. Inútil - o jovem continuou chorando e preparando o salto no mais profundo do rio.
Então, o Monge-Aragem zumbiu forte e sonoro, mexeu com os passarinhos, atirou pedrinhas no remanso as quais desenharam na água as mais voluptuosas espirais. Nada, a nenhum destes miúdos acontecimentos atendeu o desespero de Nepu. Foi então que ocorreu ao monge iluminado juntar-se às pesadas nuvens que por ali passavam rumo a distante vendaval, e convencendo-as a descerem sobre aquele pedaço de rio, ali fez ferver um tormentoso e horrível temporal. Tudo escureceu e as chuvas choveram três dias seguidos.
Três dias, findos os quais Nepu foi encontrado no galho mais alto da paineira, exausto, faminto e com muito frio, mas absolutamente decidido a não mais se matar, sobretudo, para vencer, heróico, triunfante, aquela tormentosa borrasca. Se isto acontecesse, como era tradição em sua aldeia, Nepu poderia desposar a mais rica donzela daquelas paragens. Diante de tanto dinheiro e poder, como é que não iria valorizar a vida? - pensou o nosso quase-suicida. Mas o que ninguém esperava era que o Monge-Aragem perdesse repentinamente o dom de voar. Por quê? - se perguntaram os duendes da floresta, mas quem respondeu foi ele próprio, o monge encantado.
Soubesse que Nepu trocaria o suicídio pelo triunfo o mais mesquinho, traduzido em dinheiro, poder e nenhum amor por quem seria a sua esposa, o velho monge não faria haver os ventos e nem a tormentosa borrasca. Como não pensou nisso, como descuidou da naja que vive no olho do orgulho, o Monge-Aragem não pôde mais voar, não pôde nunca mais voar, ao menos enquanto durou esta história. Há quem diga que, convertido numa pedra triste, nela o ambicioso Nepu escorregou, caindo naquele trecho de rio onde nem o mais exímio nadador até hoje escapou de morrer afogado.

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