Um mínimo de humanidade deveria ser o suficiente para que qualquer mortal se escandalizasse com os horrores praticados pelos homens em nome de Deus - dos (brutais) sacrifícios de seres vivos no panteísmo de nossa origem babuína à perseguição e morte de opositores políticos pelos assustadores ‘‘talebans’’ afgãos como, de modo recorrente, vemos nos telejornais das oito.
Há uma versão búdica para o cristianismo tão arrepiante quanto verossímil: vários ‘‘boddisattvas’’ (seres que recusam o nirvana para reencarnarem entre nós com o intento de nos ajudar a que nos salvemos de nós mesmos) se reúnem no sexto céu e deliberam: um dos boddisattvas deverá retornar à Terra para ser o Cristo. Desolada tentativa para, quem sabe, com a crudelíssima morte de um Deus, a humanidade acorde de seu sono pesadelar cheios de unhas e de ódios. Ainda assim, sabemos, isto não foi o suficiente. Acordamos?
O ser humano, gentil leitor, não tem cura.
Aqui, ou alhures, a nossa perversidade é de causar pânico a um mais desavisado. Acabo de ler alguns discursos do Dalai Lama (o ‘‘papa’’ do budismo tibetano, exilado na Índia) onde narra, entre outras, o sacrifício imposto aos animais por Mao Tsé-Tung: sob o insano argumento de que pássaros, cachorros e gatos poderiam vir a disputar alimento com o proletariado chinês, ordenou-lhes o sacrifício em massa.
Não precisa acrescentar os exageros e a sofisticação com que os homens apreciam lidar com o seu inerente sadismo: alastrou-se por toda a China um festival boshniano do zôo-horror mais malévolo: cães dos quais se retirava toda a pele para que ardessem vivos e ganindo pelas ruas antes de morrerem em demorada agonia; gatos de que se amputavam caudas, orelhas, pernas, para que miassem medonhos arrastando-se ensanguentados pelos muros; pardais apanhados em armadilhas e afogados vivos em tanques de lavar-roupa cheios de água e querosene. Isto, claro, para ficarmos entre os animais ditos inferiores... É de inferir daí o quanto foram tostados em óleo fervente os opositores.
Lembrar que muito ‘‘humanista’’ de carteirinha entoava a lenga-lenga pseudo-poética do ditador e que não longe de nós, ali na Boca Maldita, que sempre foi, aliás, reduto danadamente reacionário, nossos comunas de plantão exibissem com iletrado orgulho o ‘‘Livro Vermelho’’ de Mao, não é de admirar, em se tratando de humanistas com aspas e comunas de plantão, ou de membros de confrarias tão ociosas quanto maledicentes.
Uma das últimas edições de ‘‘Time’’ dá com destaque fotos de ladrões afgãos contra os quais foram aplicadas as penas sumárias do Taleban integrista: dos primários arrancam-se o braço e a perna esquerdos e, dos reincidentes, o que sobra. Mulheres ‘‘adúlteras’’ são apedrejadas em público, até a morte. Homossexuais, sumariamente enforcados. Opositores políticos são arrastados vivos em jipes até o local da execução, quando não atirados à multidão raivosa que, como lobos famintos, os estraçalham no dente e na porrada.
Desde o fim da União Soviética, o impensável vem sendo revelado pelos investigadores dos brutais processos de repressão - de Lenin até a perestroika - e, entre as inúmeras descobertas, há uma que, gentil leitor, esteja, por favor sentado, antes de ouví-la, posto que um homem dificilmente fica de pé ao saber disto: uma vez ao mês, alguns prisioneiros (políticos) eram escolhidos para estudo das sinapses cerebrais dos circuitos dolorosos através da aplicação de injeções de aloperidol na carótida o que fazia a vítima urrar da mais intensa dor por quinze dias seguidos. Óbvio, poucos ficaram para contar a história. Comissões têm sido constituídas na atual Rússsia para documentar, através de sobreviventes, os relatos do horror.
Isso tudo, horrorizado leitor, para não lembrarmos esta Cuba cantada em prosa e verso pelos nossos mais afáveis artistas e que, logo depois da Revolução, promoveu e continua promovendo o mais persistente massacre de homossexuais que se tem notícia em nosso planeta tido - sobretudo pelos gnósticos - como o vigésimo nono na escala evolutiva do cosmo.
E se isso tudo talha vosso café-com-leite não debite ao vezo soturno do cronista esta sombria evocação do que pode, desavisada, a alma humana, e cuja cena os telejornais nos trazem, ao vivo e a cores, com uma exatidão de sangue e lágrima. Não, são de nossa pobre Terra, estes vícios - cruéis e desnecessários - posto que a humanidade desde sempre se recuse a ver a vida desde o ‘‘prajna’’ - a jóia essencial que no fundo de vosso peito pode que ilumine a humanidade inteira.

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