Wilson Bueno
Num poema em todos os sentidos emblemático, Carlos Drummond de Andrade, ao falar de si, de nós e daquele vosso taciturno vizinho, relembra que quando a solidão é um vício, necessário estender o braço ao abraço. Tenho observado solidão e solitários como poucos, até por imposição profissional de escriba atento ao sentimento humano - saber sem o qual não se sustenta o poema mais reles nem o mais mofino dos racontos destemperados.
Não há, leitor, o que se compare ao crack up como de forma tão punhal a língua inglesa dá conta de um sentimento que é mais que o de alguém sozinho ( ou desacompanhado ) e que é bem isso - a rachadura, a fenda, estremecer de muro ante o iminente desmoronamento. Um frisson de ferida viva. A dissolução do ego na solidão mais solitária. Crack up.
Tarde da noite, no tugúrio, lembro os anos 70, e um texto antológico de Paulo Francis para o jornal Tribuna da Imprensa, do Rio, onde de certa forma dividíamos as atenções naqueles tempos molambos - ele iniciando o então vitorioso projeto de correspondente estrangeiro que o levara a Nova York e este vosso croniqueiro tateando o escuro de tardia adolescência, com seus artigos sujos das madrugadas cachorras de Ipanema. O artigo de Francis, difícil esquecer, tinha por título - Alone. E era onde, quase sempre, ele conseguia passar de apenas brilhante para sublime.
Movido por inusual - e radicalizada - ternura pela espécie, Paulo Francis como que se conciliava com Paulo Francis pela via mais difícil e dolorosa - a deste sentimento quase sempre infame que põe um homem cativo da desesperança. E, incrível, extraordinário - ele, cuja marca sempre foi a da contenção pessoal mais extremada, mugia bezerro estrangeiro, gritando mamãe contra o céu opaco dos invernos de Nova York.
Há na cidade de Prestwick, na Escócia, um monumento à solidão. Todo feito de bronze e cristal, seria kitsch não fôra essencial: mostra uma velha senhora sentada sobre uma pedra, a cabeça, entre as mãos, abaixada em direção ao solo para onde também pendem os longos cabelos que, cruel desesperança, escondem-lhe o rosto. Só para que imaginemos, a nosso modo e jeito, o quê de patético na face - que não vemos - torturada.
É assim a solidão, um sentimento inventado.
Mário de Andrade, que nunca se casou, foi sábio entre outras sabedorias, na luta, ainda que sempre vã, contra esta deusa da treva e do indiscernimento. É momento generoso de seu vasto epistolário, a carta que manda aos jovens mineiros, em 1924, denunciando-lhes o abuso do tédio e do desencanto, através da escrita-em-cinza de Anatole France. Momento de franqueza a mais aguda, do criador de Macunaíma, com aquele doar-se sem conta com que se fazia trezentos, trezentos e cincoenta. Era como se dissesse aos niílicos jovens dispostos às letras: isto que vocês vivem não é vida, é vício! Melhor nunca antes ter nascido. Vocês são feitos da covardia mais geléia e chamam a isso de arte e criatividade.
Odiava neles a burocracia da solidão e propunha o seu exemplo: a forma como reinventava os seus dias, só, absolutamente só, na mais absoluta solidão. Mas reparava, o sábio de sempre: solidão é esgarçamento dos sentidos, é a vida sem propósito por mais que haja gente por perto, por mais que engolfados na multidão. E acrescentava com o propósito e o desassombro que fizeram dele o mais importante intelectual brasileiro deste século: Nós temos que dar ao Brasil o que ele não tem e que por isso até agora não viveu, nós temos que dar uma alma ao Brasil e para isso todo sacrifício é grandioso, é sublime. E nos dá felicidade!
Solidão só uma, e que não saberemos nunca dela. A solidão mineral da morte. Esta mesma que hoje, não sabendo, o poeta Carlos Drummond de Andrade deve saber inteiramente, pelo que aqui releio, na velha dedicatória com que privilegiou este dúbio cantor, na edição de suas obras completas, pela Nova Aguilar: Obras completas? Falta uma palavra/ nascida do puro silêncio/ alta expressão de toda vida.
Que de solidão intangível um quiçá fonema de opala e nácar?





