Aqui, o subúrbio; aí o mar.
Mas é de dentro que vem a constatação pequenina - e humilhada - de nunca mais poder dividir contigo, um minuto que seja, mano velho, a tua festa, teu faroeste, farol e praia, ao ritmo quase solene de quando éramos sumamente antigos. É, talvez você não percebesse, acho que nem eu percebia, mas éramos sérios como paletós póstumos dentro de um armário.
Erramos de caspa e de penteado.
Duros topetes a la James Dean, irmãos mais velhos, persistimos mesmo foi com a vasta juba desgrenhada, registro do nosso escândalo fraco, e nem escândalo. Maior foi teu grito no muro, a morte expelida a baba e sal.
Aqui, sete mil anos de província; aí o puro azul de Botafogo, que não me deixa mentir.
Melhor para os teus ossos que não saibam nem nada escutem do trabalheiro que dão as manhãs, as tardes, as noites - repetidas vezes. Sobretudo as madrugadas. Estas, então, nem falar. Baratinamos, tontos e cegos, aquietamos se há uma Lua (às vezes há) mas principalmente inventamos cerimônias interiores que ninguém, absolutamente ninguém, em todo o bairro, tarde dessas horas, suspeita que grassem como erva daninha que lhes comerá o gramado. Você que é Inocente por certo não compreenderia.
Aqui delicadas subversões no mais quieto da noite; aí a tua frágil ausência, ainda que jovem, ainda que de ontem, com braçadas ao mar e o vôo suicida das gaivotas.
Não é romântico lembrar que a cara ao espelho remete apenas e tão somente aos escombros do Sobrevivente; e é uma cara quase dura, ríspida, não fossem os olhos sempre prontos à lassa flor de ternura e vício. Se mudamos? Não é pergunta que se faça, sem uma dose inconveniente de ironia.
Queria esquecer, para não lembrar nunca, que ontem fomos tão meninos, divertidos e dolorosos, e que nos enfiamos Aventura adentro - sem o cálculo do risco nem a as estatísticas da morte em queda livre. Neste sentido até que nos revelamos corajosos. O que nunca deu certo foi o que fazer com o medo.
Olha só o que aprontaram com nossos brinquedos mais diletos, sobretudo a Utopia - da lua nas pedras do Arpoador a um mundo sem religião nem fronteiras. Arrancaram-nos a pele com cirúrgica exatidão - a frio. Obrigaram a que nos confessássemos criminosos, marginais, sub seres vivos, imundos de uma imundície atroz. Marcaram nos muros a data provável de nossa execução. A doses de mandrix, no pico da insônia, alguns dormiram. E nem falo dos outros, mortos à bala.
Por que você aí tinha que ser um deles?
Aqui, procuro uma outra forma de vida que me libere do terno, da gravata, e do sentimento culposo de servir a uma causa ou a um propósito. Não há causas nem propósitos que mereçam a nossa submissão. No entanto, sob o jogo do cotidiano, temos sido dóceis ao navio-negreiro dos velhos hábitos e preconceitos.
Olha, por aqui vamos perdendo - mesmo quando isto signifique, cruel paradoxo, um ganho expressivo. Melhor pra você a brisa da manhã de novembro do que o seu áspero sol.
Mas não sei, companheiro, nunca ouso dizer ‘‘ok, você venceu!’, porque pelas tardes anda um gosto vegetal e a tua memória será sempre esta insolente permanência a que você se agarra para não sair dentre os vivos, com uma persistência aterrada e quase sem ar.

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