Wilson Bueno
Os dicéfalos
Como o próprio nome indica, os dicéfalos são animais de duas cabeças. Do tamanho de um cão dinamarquês em pé, são feios monstros das florestas geladas da Islândia.
Uma das cabeças dos dicéfalos ajusta-se perfeitamente ao que poderíamos chamar de tronco, na falta de outro nome para designar o tórax peludo de gorila que os dicéfalos exibem como que num concurso de músculos para escolher Mister Universo.
A outra cabeça, singular minúcia, brota da pélvis dos dicéfalos e, pendente de esguio pescoço se projeta para baixo, entre as grossas pernas, igualmente peludas, do monstro andarilho.
Esta cabeça é que intriga e desconcerta, ao contrário da outra, triunfante enterrada ao tronco, ainda que triste e contrariada; é nela e em seu par de olhos definitivamente virados para baixo que os dicéfalos revêem os próprios bambos passos. Juntos do chão, com olhos, claro, que reviram o mundo ao avesso e o põem literalmente de pernas para o ar feito uma gozosa fuzarca.
Na cabeça de cima, se não ofendo a memória dos dicéfalos com afirmação tão crua, têm dois olhos que, possuídos pelo rumor da inveja, piscam tantas vezes e com tamanha velocidade que é como se os dicéfalos nunca tivessem, nem uma vez sequer na vida, cerrado os olhos.
Zoólatras do Industão que se aventuraram na caça aos vestígios deste animal provavelmente originário da China e que, monstro peregrino, se espalhou por todo o globo terrestre, descobriram, registrado pelas hordas primevas, em toscas argilas, o número de vezes em que a boca escatológica dos dicéfalos, a do lado de baixo, pronunciou, certa tarde africana, a palavra Amor, ou o que isto significasse, e esta vez foi nenhuma.
A boca de cima, não, esta só é capaz das palavras as mais suaves e que, de preferência, exprimam a leveza do dia. Aí também os zoólatras industaneses não encontraram, dita, uma só vez, a palavra Amor - esta mesma, tão pobre de sentido e prática cá neste nosso mundo insensato.
Onde aprenderam a emitir tanto as ríspidas quanto as excelsas palavras é fato que não se encontra registrado em nenhum manual de zoofilia, os quais se limitam a informar, com espantosa rudeza, que os dicéfalos, apesar das duas explícitas cabeças, não compõem nem juntam, não incluem, não dançam e nem contribuem com um só dia feliz para o nosso mundo casmurro.





