Não há luz suficiente, nem nunca haverá, para atenuar as sombras que lentas se instalam no domingo sem Deus do quitinete.
Tropeço nos próprios escombros: lá fora, o ar carregado de junho no Rio de mil-novecentos-e-setenta-e-um. Garrafas vazias, cinzeiros entupidos. A consciência ofegante de que no jogo sinistro caíramos numa armadilha.
No espelho do banheiro, desarranjada e obscena, a cara grande com barba de dias, os olhos fundos, o nariz enorme, a pálpebra inchada - todo o rosto numa expressão quase póstuma. Evitando o rosto medonho que a cabeleira engadanhada não conseguia esconder, me vinha ali e naquele momento, a vaidade de me julgar um monstro.
Pedaços de mim surgem, recorrentes. Pedaços de nós na privada e no tapete. Havíamos nos encontrado para um ritual a que a morte de um amigo em Nova York nos levara a oficiar na desarvoragem química com que anestesiávamos a vida estreita.
Fugir, todos os dias, fugir, era a matéria do engano; escapar - a fatalidade única capaz de nos salvar daquilo que nos matava. Gritar, inútil. O tempo espesso, o tempo doentio que o mero toque de uma campainha, nos quitinetes, tinha o poder de nos paralisar num medo pornográfico, gelado e inevitável. Recompostos sofríamos o pudor da covardia.
A tarde avança com pressa insensata. A chuva persiste. Todos se foram, sem nenhum dar pelo outro. Ratos. Ficaram os fragmentos, os pedaços, ecos embaralhados da madrugada insana. Agora e ali, ausência, autismo, ressaca e rebordosa. O chão imundo, copos quebrados, sujeiras inexplicáveis, manchas de vinho sangue-de-boi sobre o tapete, as almofadas e as camas de tatami. Agora e ali, as sombras se alongam pela janela vedada por um lençol.
Por que necessário fechar-se? Por que todas as cortinas do mundo devem estar cerradas? E por que, ainda, aquela aspiração insensata de atravessar para além da própria concepção? Retornar à cerimônia uterina num jeito de suicidar-se sem dor? Cobrir-se com todas as cobertas, mergulhar no colchão de espuma, a cara horrorizada de si mesma.
Morrer em Nova York não deixava de constituir o sonho sub-romântico dos pirados. Estourar a cabeça no Greenwich Village ainda melhor. Quem sabe, ouvindo Janis Joplin? Assim fôra com ele, cuja memória nos reunira na liturgia macabra de um encontro noturno que acabaria em orgia e lágrimas. Patético - como convinha ao ano, ao mês e ao fascismo caboclo que instalava, vitorioso, em minha geração, o ambiente sanatorial a que vinha. O pequeno país - em si já inconsistente - o pequeno país de minha geração fora aprisionado - numa ratoeira.
Sob horror Médici, muitos eram inocentes; quase todos, vítimas, e alguns excessivamente calhordas. Mais do que os mortos na resistência contra a ditadura, é preciso um dia que se faça a contabilidade dos assassinatos brancos de alto repertório, praticados com ciência, e que arrebentaram, de modo irreversível, os meus vinte anos brasileiros. Indenização alguma chegará ao preço de resgatar o sequestro - definitivo - lá atrás, de nossa vera juventude. Isto aqui não é um lamento e nem se quer uma coisa ressentida, embora pareça, e é, um baixo-profundo.
E quem estava ali, no domingo de chuva, no quitinete do cabeça-de-porco do Leblon, descobria a certeza da violência oficial - como a um murro. Aquilo não era vida, mas não havia substituição capaz de nos suportar os nervos escangalhados, o temor dos outros, e de nós mesmos - brutal - contra o espelho. Atordoávamos - sem caminho, sem rumo, sub-existindo dos frilas miúdos, matérias ordinárias para revistas da Bloch Editores, datilografias, favores, pequenos expedientes. Isso tudo quando se tem vinte e poucos anos, uma cidade a conquistar e uma biografia a constituir, desmobiliza o sonho, nocauteia a vontade, atenua o tesão.
A morte em Nova York, às três da tarde, por overdose, humilhava-nos o desespero demais. Na tarde desabada do quitinete, experimentava os ossos no desconforto do tatami doméstico, soterrado sob cobertas, insone. Acender as luzes era esbarrar na nitidez do saldo trágico da noite para sempre impressa - da sala ao quarto, do banheiro à cozinha.
Mais do que ratos - carneiros. Todos um bando de ovelhas desgarradas, bezerros carentes socorrendo-se mutuamente - numa confraria aturdida e desencontrada. A chuva. A noite desabando pelas paredes - devagar. O silêncio grande demais.
Na geladeira vazia, meia garrafa de gim.

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