Wilson Bueno
Há menos de duas semanas, tivemos a honra de proceder ao encerramento de mais um Perhappiness, o evento anual que a Fundação Cultural de Curitiba realiza em grande estilo em torno da literatura. A este vosso croniqueiro, a Jamil Snege, José Castello e Marcelo Sandman coube-nos discutir o ofício de escrever, indissociável do ofício de ler. Foi um bom e gozoso momento de reflexão no auditório do Memorial da Cidade, quando, entre outras, levantamos as questões que aí vão, agora ao jeito e ao modo da letra impressa, bem distante da oralidade muitas vezes caótica em que se constituem as palestras, os debates e as mesas-redondas.
Dizia Jorge Luis Borges, um dos mais importantes escritores deste nosso pobre século, em entrevista à revista mexicana Plural, pouco antes de morrer, que pouco importava - a ele, pessoalmente - tudo o que tinha escrito mas que se pudesse fazer um balanço do que teria valido a pena em sua longa existência, não poderia descartar a magia, o encanto insubstituível da leitura. Claro que em Borges a afirmativa soa quase ambígua - porque se existiu escritor, em toda a história, cuja literatura tenha se confundido com a arte de ler, este foi ele mesmo, Jorge Luis Borges.
Mas há sinceridade e superior sabedoria na resposta do escritor porque, sabemos, sobretudo os que escrevemos - no que se insere ainda que de forma rigorosamente modesta, acreditem, o autor destas linhas - que não há, senhores, como o ofício, o engenho e a arte arrebatadores do gosto de ler.
É preciso, ao contrário do que muitos pensam, vocação para o ofício. Pode que essa vocação se forme ou ganhe consistência ao longo da vida mas será sempre vocação - um dom, uma quase graça, uma dádiva. Não exagero - também Vitor Hugo, ao final de sua prodigiosa vida, prodigiosa velhice e mais que prodigiosa obra, insistia em que ler era mais, muito mais importante, para ele, do que escrever.
Mas numa outra típica confluência com a arte de escrever, a arte de ler terá, a exemplo da primeira, inventores, mestres e diluidores, para lembrar o que Pound aplicou ao seu nunca assaz louvado paideuma (uma espécie de antologia ) da boa e velha ars literaria.
Não há leitura sem invenção e até a mais tola das escrituras pedirá a vossa colaboração, obsessivo leitor, mesmo porque só o ato de decifrar os sinais impressos ao papel, ou ao papiro, já será, ele próprio, uma coisa lúdica e inventiva, um jogo de paciência e delicadeza, da qual não estará nunca ausente a imaginação e o engenho.
Sem talento não há leitor, ou há leitor de menos, porque aqui - agora em oposição a este jogo, mais sombrio, o jogo de escrever - o leitor de menos inexiste mesmo, é zero matemático, não conta nem faz, enquanto o escritor de menos, o escritor menor, ao que chamamos mediano e/ou medíocre ( sem nenhuma valoração moral aí, por favor) ainda assim inventa e faz, constrói e redime.
Desde Homero que a literatura é um artesanato, com maior ou menor sucesso por parte de seus oficiantes - artesanato da alta cultura ou artesanato popular, não importa onde o artigo esteja à venda - se nas butiques da Oscar Freire, em São Paulo, ou nas outrora alegres feiras de Caruaru, em Pernambuco. Idem para a produção literária do centro ou da periferia, para lembrar - mais uma vez - como se estabelece o jogo lítero-editorial sobretudo no Brasil.
Ao leitor, as batatas!
Stendhal não escondia ter escrito O Vermelho e o Negro para cem leitores. Há mais que modéstia nesta confissão, há a ciência profunda de que aí o que importa não é, em hipótese alguma, o número de leitores mas o que transcende toda mensuração e toda estatística - o talento de ser lido, translido, reinventado pela graça insubstituível do leitor ativo.
Sim, senhores - há leitores ativos assim como existem leitores passivos, e não é outro o resultado a que chega ampla e recente pesquisa assinada pela revista Personne, editada em Paris pelo grupo da Magazin Literaire: mais de 70% dos compradores de best-sellers, não abrem sequer, o livro recém-comprado, para verificar como é o primeiro capítulo, alojando-o (65%) em parte visível da estante; 18% lêem o livro só até as primeiras páginas e 9% vão até metade do livro - não entendendo a possível história ou quando entendendo, esquecendo-a em menos de três dias o que é, a meu ver, o item mais aberrante da pesquisa.
Mas o espantoso de toda esta história é o seguinte: a crer na pesquisa da Personne, e não há como não acreditar nela, sobram do universo de compradores de best-sellers (entre O Homem que Matou Getúlio Vargas e os Sidney Sheldons da vida) 3% de leitores que lêem o livro do começo até o fim. Só que, cruel ironia, destes, só 1,4% compreendem inteiramente o que leram, sobrando aos 1,6% restantes a frustrante constatação que o autor é muito difícil, sendo esta a razão principal (97%) de não terem entendido bulhufas. Só que aí, redobre-se a crueza, já estamos no movediço terreno onde a pesquisa pode oscilar entre a verdade científica e o mais puro e deslavado erro estatístico.
Melhor que os cem leitores exigidos por Stendhal, nós os que ousamos escrever, melhor exultarmos com os dois ou três que, nos reescrevendo os textos duramente escritos, através da arte de ler nos lêem como quem lê a literatura pela primeira vez.
Existiram, um dia? Ou foi só o vento que levantou a página do livro aberto sobre a mesa?





