Wilson Bueno
Em quase 2 mil anos de cristianismo, não conheço nada que tenha sido mais enriquecido pelo imaginário humano do que o Natal. Vertente sígnica, ela própria, de grande riqueza, dando margem a um amplo leque de significados e significâncias, difícil algo que supere o evento acachapante - um deus nasce entre os homens. De novo nasce, entre nós, na próxima sexta-feira. E ainda mais surpreendente: não vem com mil braços e pernas, como entre os indianos; não é filho de uma rainha nascida do flanco esquerdo de um elefante como o Buda. Não, o deus cristão nasce de uma mulher, de uma humilde mulher. Não importa se concebido pelo Espírito Santo, é homem, de carne e osso, o que nasce deus. E mais: não bastando integrar o gênero humano, está entre os mais pobres dele, um quase-miserável, um homeless, um excluído.
Lembro aqui as longas conversas com Paulo Leminski sobre o tema, naquele modo peculiar com que o Polaco chamava conversar, a necessidade compulsiva de só ele falar o tempo todo. Para Leminski, ao menos naquelas noites do Pilarzinho, Jesus só podia mesmo ser Deus - além de poeta único, continuava (e continua) detendo duas das maiores logomarcas da história humana - atando nascimento e morte, numa ponta a estrela de Belém e em outra a cruz. Por isso, o hábito da estrela e da cruz para assinalar respectivamente nascimento e morte, entre os cristãos. Eu acrescentava a suástica e a estrela-de-david como dois outros poderosos logotítulos, ao que Leminski retrucava com o argumento definitivo - ninguém com um símbolo para nascer e outro para morrer, os quais, um e outro, possivelmente estarão entre os homens enquanto houver humanidade. Esse tipo de papo inútil acabava sendo interrompido invariavelmente por uma vodka gelada, não sem que eu lembrasse antes que ele, Tio Lema, era muito suspeito - cristão católico e comunista... Não importando o Natal, Leminski era uma delícia.
Eu, de meu lado, que prossigo entre os vivos, a cada Natal me surpreendo de que o Natal já tenha chegado de novo, e não há Natal que eu não sofra, ainda uma vez, a nostalgia de tudo o que poderia ter sido mas não foi, ou do que tendo sido, foi, evanesceu e - mesmo não ficando - deixou para sempre em nós a sua marca impressa. Seres esquizos, nos abobamos em certos trechos.
Daí que um dos mais festejados contos de Natal, seja O Presente dos Magos, clássico de O. Henry e do qual temos, no Brasil, uma tradução primorosa de José Paulo Paes. Pela Cultrix.
O. Henry, pseudônimo de William Sidney Porter, é quase um Saint-Exupéry americano, com seus contos líricos, delicados, esquemáticos e, algumas vezes, caricaturais. A dita grande crítica torce o nariz para sua literatura, evidentemente. Mas isso não impede que seus livros sucedam-se em numerosas reedições em todo o mundo, escritor extremamente popular nos Estados Unidos, mais uma prova do quanto a grande crítica desconhece o grande público e é, por este, desconhecida.
Como esquecer, quem leu, a história de Della e Jim? Pelas ruas da suja e nevoenta Nova York do início do século, a muitos graus abaixo de zero, a heroína, ao verificar que as economias de um ano, não passavam de 1 dólar e 85 centavos, vende os seus longuíssimos cabelos, de toda a vida, a um peruqueiro, e com o dinheiro (20 dólares) compra uma corrente para o relógio-de-bolso do marido, como presente natalino. Até aí só piegas. Mas o encanto de O. Henry está na capacidade quase diabólica de revirar a história e apresentar o inusitado, o motivo-surpresa, artifício certamente que aprendido na leitura obsessiva de Poe.
E por necessidade absoluta de detalhar O. Henry para os que eventualmente o desconheçam, sou obrigado a traí-lo, ao menos em O Presente dos Magos: Della chega da rua com a corrente e o marido com um jogo de pentes . Não precisa acrescentar que Jim vendera o relógio...
Chama atenção, sobretudo nesses nosso tempo pós literário, que depois da cena final de O Presente dos Magos, O. Henry tenha a pachorra e o - nenhum - pudor de tecer uma espécie de comentário moral à história que acaba, aliás brilhantemente, de contar: E aqui lhes contei canhestramente a desimportante crônica de duas crianças tolas, num apartamento, as quais, da maneira a mais insensata, sacrificaram, uma pela outra, os maiores tesouros de seu lar. Mas como derradeira palavra para os sensatos dos dias que correm, seja dito que, de todos os que dão presentes, os dois foram os mais sábios. Todos que dêem e recebam presentes como os deles são os mais sábios. Em toda parte, os mais sábios. São os magos.
Impossível não concluir estas linhas em torno deste e de outros Natais, sem lembrar Guimarães Rosa, um cultor de jesuscristinho, como gostava de se referir ao Menino Jesus, o poetinha Vinicíus de Moraes: Senhora Dona: Um menino nasceu. O mundo tornou a começar!
Talvez esta seja, sim, a essência.





