Wilson Bueno
Adolfo, o nome do sapo; e era, de novo, uma vez.
Pelamordedeus, o papo, o tamanho do papo do Adolfo, ninguém adivinha. Vendo-o assim, à beira do lago, em sua cativa barranca barrosa, fumando cigarros Liberty, com piteira de ponta curta, Adolfo, o sapo, não passa de um jovem senhor capaz de a cada baforada sacudir a pança, e mais que a pança, o papo. Difícil imaginar - que papo, senhores; sem nenhum exagero, que papo! Maior que a pança, o papo. E o que é melhor - rosa pálido, um papo tecnicolor.
A primeira vez em que ficámos ao pé dele, do sapo e de seu papo, ainda não éramos a cobra que somos hoje, cobra já formada em advocacia e criminalística, capaz até de rivalizar com o sapo e o seu papo. Não, cobra menina, virgem de toda sacanagem que constituiu ontem e segue constituindo hoje prática obsessiva da Floresta, enrolada em nosso próprio corpo, ali quedámos, a então infante cabecinha no ar, ouvindo e engolindo saliva, engolindo saliva e ouvindo, a língua inquieta e os olhos rútilos.
Sabem o que é que Adolfo, o sapo, alardeava? Que estava de namoro firme com a girafa! Pelamordedeus, gente, pelamordedeus, ficámos já àquela altura da existência, estupefatas - onde já se viu um sapo namorar uma girafa? Acábamos? Pois o papo do sapo inflava e desinflava, feito fosse um saco o papo do sapo - enchendo quando recordava o pescoço da girafa, o mais dândi e o mais coquete, delgado pescocinho apaixonado, e esvaziando quando dizia dos úmidos beijos de amor que em tal pescoço dera com esta boca que Deus gerou, e a terra há de comer, larga boca de sapo paposo.
Já mocinha, naqueles agitados dias de nossos exames vestibulares, Adolfo, o sapo, saiu-se com outra, isto é, com esta: a tragadas rápidas em seu inseparável cigarro, disse alto e bom som (aliás, Adolfo sempre falava alto e bom som, o papo estufado ao limite do sapo...) que iria fazer muito breve um cruzeiro turístico pelos arquipélagos do Pacífico. Sabem com quem? Com a Jibóia... Olha, gente, de jibóia entendemos, e não precisa ser cobra criada para compreender que sapo e jibóia não são propriamente o que podemos chamar de uma parceria, pelo simples fato de que jibóia que se preze não poupa sapo nenhum nem seu papo. Nhoct! Engole sapo, papo, e o que estiver por perto.
Mas Adolfo não se mancava: abandonara a Girafa - dilatava - não por muito alta e vegetariana, mas porque demais de cândida e ele, ah, ele, Adolfo, o sapo, não vivia sem emoções - estendia -, e agora, perdido de amores pela Jibóia, sonhava com pesca submarina, indizíveis mergulhos no fresco mar de Honolulu, o casamento ritual havaiano, com guirlandas de flores à toda volta do pescoço.
Pescoço? Cobra velha que sou, sei: nem jibóia e muito menos sapo são o que nomearíamos facilmente como animais com pescoço, não é mesmo? Dono porém de seu papo, Adolfo, o sapo, de novo exagerava. Mais um pouco, gargantearia, debaixo de nossas presas, namorador, que pescoço de girafa não era bem pescoço que se preze, e que se ame assim do amor mais lasso. E não o sendo ele, de quem o seria? O do sapo, por um acaso? Pelamordedeus, o papo, que papo, o do sapo.
Desta vez decidimos encarar: até onde iria com aquele papo o papudo Adolfo? E o que era pior - não calava nunca, uma mentira maior que a outra, ampliando, somando, fanfarronando, sempre naquele tom de coaxo imodesto e bem esnobe, nós necessitadíssimas de estudar para os exames vestibulares, com prova de Português marcada para a manhã seguinte. Mas Adolfo, o sapo, distendia: ora falava em safári na África, com a Jibóia, claro; ora delirava com dançantes núpcias em Bora Bora, com a Jibóia, evidentemente. E acabámos ficando tão absolutamente incomodadas que não sobrando mais argumento para convencê-lo a cerrar a boca e fechar o papo, decidimos, cobra que somos, chamar a Jibóia em carne e osso, que, como sabem, é nossa prima.
Assim que a viu resfolegar na barrosa barranca, e ali estacar, rastreadora, Adolfo, o sapo, fiando-se piamente no seu próprio papo, em dois ou três saltos, de pura excitação, chegou junto dela que, imóvel, a grande boca aberta, o esperava. Ainda riu, atirou longe o cigarro, e virou o pescoço (êpa!) para nós que a tudo assistíamos, e com uma piscadinha, o papo todo inflado, zapt!, feito quem diz, para vocês que não acreditam, olhem, zapt!, meu beijo apaixonado na linda Jibóia, zapt!, Adolfo, o sapo, zapt!, com papo e tudo, zapt!
Mas pensam que se deu por vencido? Qual nada, no papo da Jibóia ainda inflou o papo dele, esplendoroso, e alardeou, abafado: isto é que é intimidade, ora veja, Cobra Cética, ora, ora, lá vamos nós para Polinésia Francesa, pescar, de escafandro, um espadarte.
E então, de vez, zapt!





