Wilson Bueno
Wilson Bueno
Um Koan
Consciente de que a repetição destes prólogos tem sido exaustiva, ainda assim o repito, pois há sempre a esperança de um novo leitor chegado às pressas cá a este canto de jornal, sem saber - ainda - o que sejam os koans e de que essência a sua natureza dúbia.
Para estes leitores, se os há, é que de novo explico - koans são miniestórias, haicais narrativos, a pura poesia com que o zen busca e persegue o satori, a chamada iluminação búdica capaz de converter a mais crassa ignorância em súbita e vertical sabedoria.
Só o saber nos salva e é por esta via que pode morar um céu no chão - mesmo o chão mais inóspito o qual, convertido em luz, há de revelar o ouro de seu espírito essência.
Ao koan, pois, e à sua música.
A carne trêmula
Entre os monges errantes do Tibet, havia um, muitíssimo velho, que todos diziam já ter desencarnado, mas que, segundo a lenda, insistia em permanecer entre os vivos pelo puro prazer de buscar o que de terror a morte inspirava em quem não havia morrido, agora que, para ele, a morte não constituía mais nenhum mistério. Angústia de quem vive, pretendia o monge desconstruir a morte, flagrando-a no que, puro medo infantil, ela incutia aos vivos. Acrescente-se que o monge em questão morrera simbolicamente centenas de vezes ao longo de uma existência quase centenária, e só quando morrera de fato, é que vira - esmiúça a lenda - que a morte não era nada, absolutamente nada do que uma vida inteira imaginara.
Desconfiados de que nosso monge era Chyonk Chian, que haviam acabado de abandonar, muito doente, numa aldeia próxima a Teipu, a noroeste de Lhasa, a bela capital tibetana, um jovem e ousado noviço decidiu empreender longa jornada montanha acima com o fim exclusivo de interpelar o monge desencarnado.
Antes disso, porém, preferiu buscar orientação junto ao líder do grupo errante, o monge Anayu, outro de quem se suspeitava tivesse feito a mesma opção.
- Mestre, o que achas de minha partida em direção a Teipu, onde ficou o monge que pensamos ser o monge desencarnado?
- Considero uma perda inútil de energia. Por que desejas possuir esta certeza?
- Porque, principalmente, mestre, desejo desmascarar Chyonk Chian. Acho a atitude dele um desrespeito ao Buda. Quem desencarna, desencarna para encarnar em outro ser vivo, não foi isto que aprendemos?
- E, por acaso, Chian não é um ser vivo?
- Propala por todo o Tibet que não, que já desencarnou, mestre, e que se encontra entre nós apenas pelo prazer de especular o medo da morte na vida dos vivos.
- E você se sentirá confortável com que ele proceda assim contigo?
- Não conseguirá nada comigo, mestre, pois não tenho medo de morrer.
- Ora, isto será o bastante para Chyonk Chian.... O nenhum medo de morrer, sobretudo entre jovens como você...
- Mas eu o desmascararei antes disso, meu caro Anayu.
- Então faça isso, meu filho, faça-o logo...
Rindo-se muito, Anayu entreabriu o grande bolso da túnica, justo ali onde, transformado em besouro, Chyonk Chian estralava as asas feito quem diz que a morte não há, e, supor que não haja medo dela, como queria o inexperiente discípulo, ainda é erro, e a angústia mais crassa de quem descrê do que pode o Buda no coração de um inseto.
E assim que viu o jovem discípulo dobrar a primeira curva da estrada, cantando uma canção birmanesa Anayu voou à primeira árvore, pássaro cantor com um besouro debaixo da asa.





