Wilson Bueno
Quer dizer, então, que o nosso Luiz Geraldo Mazza agora é imortal? Não morre mais o nosso Lulú, não morre? Melhor, bem melhor para os que o amamos de uma amizade - ainda que não assídua, invariável - que, pertencendo à Academia Paranaense de Letras, possamos ter garantidos para sempre a sua verve e a sua malícia, o gosto bom de fustigar os poderosos e o talento não pequeno que Deus lhe deu para esmiuçar a mesmice do varejão político nosso de cada dia.
Imortalidades à parte, olho lá atrás e não concebo Curitiba sem Mazzóvski que é como eu o chamo, com aquela cara sua, talhada a machado, a sugerir um personagem de Dostoievski. Tudo se mistura num mesmo cenário - ora o vejo, os gestos italianíssimos, a vibrar, no meio da rua, por um filme - Os Companheiros, de Monicelli, ora lembro dele arrancando do folclórico Esmaga, na Boca Maldita, um dito, uma palavra parva, novo e impiedoso chiste. E também não esqueço minhas brigas, particularmente etílicas, com ele, nos bares da vida onde, tantas vezes, pelo passado, glauberianamente rodei a baiana.
Este texto aqui tentou, desde o princípio, esquivar-se da Academia Paranaense de Letras mas já me pego lembrando o meu nunca esquecido poeta Vasco Taborda Ribas, um entusiasta desses clubes lítero-canórios, e de pronto tenho quatorze anos e uma perplexidade - por que se reúnem os velhinhos quando a tarde cai? Escrever é isto? Estas reuniões em que se fala da vida alheia em meio à geral discurseira? Para que os fardões, as palestras arrastadas, as tertúlias em que uma poetrasta gorda recita, de sua própria lavra, uma ode aos pinheirais?
A memória recolhe os bigodes frisados de Vasco Taborda Ribas, o jeito manso de nos aconselhar a vida, e de outra ponta o que se flagra, naquele final endiabrado dos sessentas, é a morba acidez de Jamil Snege a tudo demolindo, turco e impiedoso, juntando num mesmo trapo, Dona Pilar Taborda Ribas e Serafim França, Fernandinho Horilka e Valfrido Piloto, o Clube Curitibano e o Centro de Letras do Paraná. Em meio ao tumulto a minha adolescência olhava sem rumo.
Tudo isto para dizer que estou ligado afetivamente - esse tipo de laço quase sempre indissolúvel - tanto à Academia Paranaense de Letras quanto àqueles que a tem na conta de penduricalho social dispensável, e nem situo Jamil Snege entre estes últimos, pois, sabemos, e Fábio Campana é quem propala - o próximo imortal, ninguém duvide, será o Turco. Está aí uma tarefa para o Túlio Vargas, e das mais urgentes, senão o Turco, do jeito que anda nas páginas nacionais, acaba mesmo é na outra Academia, a Brasileira de Letras, e não terá sido culpa do Luiz Geraldo Mazza.
Aliás, a cara feliz de Mazzóvski, nas fotos da posse que os jornais deram com quase obsessivo destaque, parecia nos conclamar a todos a aderir ao panteão acadêmico, feito quem insinua, só com o rosto e o sorriso, o que eu, Campana, Snege, Tezza, Alice Ruiz - para ficar nos mais próximos - estaríamos tolamente perdendo.
E o José Castello, gente? Embora o fino do escriba, por ser carioca, não entra? Não entra o Castello para a Academia Paranaense de Letras, Dr. Túlio? Se isto for verdade, retiramos, desde já, eu e o Snege, a nossa paranista candidatura.
Academia e acadêmicos à parte, o que fica e consola é a lembrança de um nome como o de Luiz Geraldo Mazza para tão egrégia casa. Mal ou bem premia-se o jornalista incansável, testemunha cotidiana da cena paranaense, ao mesmo tempo em que se dá uma demonstração pública de que nem só de livros se faz a reflexão de cada dia. Em seu pedaço de jornal, Mazza vem construindo as suas obras completas, vigilante da obra alheia feito um Agripino Grieco. E isto é trabalho criativo, na mais ampla acepção do termo.
Bonito ver Mazzóvski, na badalada festa da posse, entre sonetistas e bacharéis, professores e empresários, de beca bordada, a horrível veste que enfiam ao pescoço dos acadêmicos. Dona Nair e Seo Arnaldo Mazza ririam orgulhosos de seu filho, baixo a solidão de areia dos seus mais de 90 anos, entre papoulas e junquilhos ririam Dona Nair e Seo Arnaldo, um riso orgulhoso, na casinha de madeira - que não há mais - escondida entre árvores no bom bairro do Cabral. E só por este detalhe tudo já valeria a pena.
Isto se Luiz Geraldo Mazza não estivesse, ainda que simbolicamente, ao largo do tempo, imortal de uma imortalidade imorredoura.
Dá-lhe, Mazzóvski.





