Wilson Bueno
Nos demorados entardeceres de Seaman, a oeste de Manhattan, nosso compadre irlandês, Patrick Arrow, que havia viajado a África, costumava contar uma história muitíssimo interessante sobre a coragem, este valor tantas vezes confundido, pelo machismo reinante, com o que há de pior na natureza humana - a impostura agressiva que, em última análise, é um modo ainda mais depravado de covardia.
A história do velho Patrick remetia aos ágrafos benguelas e falava de uma remota manhã em Bangoyo, pequena aldeia do interior sul-africano, onde viveu, meticulosos 115 anos, um guerreiro chamado Amokê.
Segundo nosso compadre irlandês, Amokê teria vivido quase meio século de sua longa existência absolutamente dominado pelo medo, tendo se recusado, por mais de uma vez, durante este tempo, até mesmo a empunhar lanças para a defesa de sua aldeia. A defesa, entre os benguelas, e não só entre eles, é uma atitude quase instintiva, assim como o olho se fecha ante a ameaça do cisco ou correm as pernas frente à fome do leopardo. Consolava-se com o fato de não ser o único medroso entre os que viviam na aldeia aquele tempo. Mas era, dentre eles, o mais revoltado.
Perto de completar exatos cinquenta anos, numa memorável manhã, Amokê retirou-se para a floresta, depois de protagonizar, diante da tribo, mais um vexame envolvendo o seu incurável pavor.
Longo tempo passou ausente da aldeia, dormindo nos galhos mais altos das árvores, se alimentando de frutos e raízes e andando dias e noites sem descanso atrás do nunca ouvido canto de um pássaro, tão extremamente mavioso, que era impossível não segui-lo, enfurnando-se, cada vez mais, no interior da floresta.
Ao perceber que não saberia voltar para a aldeia, Amokê foi tomado de um grande desespero e quanto mais gritava por socorro, mais o pássaro respondia, em contracanto, e mais ele se embrenhava na selva. Clamando por todos os deuses e até mesmo pelo espírito dos guerreiros mortos - o que entre os benguelas é quase um erro - Amokê começou a temer profundamente a morte iminente e quanto mais a temia, mais se apavorava o benguela perdido de si mesmo.
O pássaro continuou atraindo-o com seu canto irresistível, num jogo de sedução que levou Amokê, depois de muito andar mata adentro, a uma grande clareira, no que parecia o coração da floresta. Ali erguiam-se numerosas choças as quais logo percebeu tratar-se, para sua ainda maior angústia, da perdida aldeia dos boraykês, arquiinimigos dos benguelas, povo a que pertencia nosso (anti) herói. Para quem passou cinquenta anos imerso no medo paralisante, fácil imaginar a reação.
Mas aí é que entra a coragem, este valor supremo, e faz de Amokê, por mais sessenta e cinco anos, um mito vivo entre os benguelas de Bangoyo, e também entre os temidos boraykês: ao perceber o pássaro, muito próximo dele, no galho baixo de uma árvore, ainda a cantar o seu canto inenarrável, pressentiu que era agora ou nunca e se precipitou na direção dele, agarrando-o com uma das mãos. Ao contrário do que pensava, o pássaro não ofereceu resistência, continuando a cantar, mesmo na concha de suas mãos.
E é aí que o desassombro se confirma: correram ao forasteiro dezenas de boraykês que ao adivinharem presença estranha haviam se escondido na mata, e dela saíram, como num passe de mágica, louvando-o e festejando-o com danças e reverências e gritos e canções.
Amokê, em sua tumultuada inocência, não percebera que o pássaro era o Pássaro do Medo e que enquanto não fosse aprisionado - o que constituía tarefa de altíssimo risco, punida com a morte de quem tentasse e não o conseguisse - tanto guerreiros boraykês quanto muitos benguelas permaneceriam acuados pelo pavor mais pânico.
Isto nos contava, no entardecer de Seaman, o velho Patrick Arrow, fumando os seus cigarros feitos à mão e nos olhando com aqueles olhos seus, de um líquido azul.





