Wilson Bueno
O poeta Ivo Barroso sabe das coisas: me surpreende, cá no escritório, na semana, com o envio de um grande pequeno presente - o recém-lançado O Corvo e suas traduções, (Lacerda Editores, 1998, 105 págs.) que reúne, além do original do nunca assaz louvado poema de Edgar Allan Poe, algumas de suas importantes versões para o português. Com concepção gráfica de Vitor Burton, o livrinho, organizado pelo próprio Ivo Barroso, é um primor.
Num breve ensaio de minuciosa tessitura, que introduz a antologia, Ivo que é, sem dúvida, um dos nossos mais lúcidos tradutores, destaca a gênese e o engenho deste poema incomum e comenta as traduções. Nele, não poupa críticas a Machado de Assis e a Fernando Pessoa, dois dos mais célebres tradutores de O Corvo à nossa língua. Para quem pensava o trabalho de Machado impecável e o de Pessoa, ainda mais, pela familiaridade do poeta luso com o inglês, se decepciona.
Ivo Barroso desmonta as duas, bem como a de Godim da Fonseca, de 1928, advertindo para uma quase desconhecida versão do poema realizada pelo mineiro Milton Amado, em 1943, como a mais fiel à traição inerente a toda tradução que se preze.
E nos dá, sobretudo para nós, paranaenses, uma curiosidade - a tradução feita por Emilio de Meneses, em 1917, aliás dedicada a Machado de Assis, ali registrado com desusada reverência como O Mestre dos Mestres... A exemplo da de Benedito Lopes, de 1956, e que também integra o volume, é inteiramente composta de sonetos exemplares, o que, convenhamos, acaba se convertendo na destruição do original, coisa que Ivo Barroso, expert, deve concordar. Um toque de modernidade, ou de pós-modernidade, como queiram, temos com a concepção do poema por Alexei Bueno (1980), igualmente coligida no precioso livrinho, além das desinvenções, em prosa, de Baudelaire (1853) e Mallarmé (1888).
Dia desses, o livro já pronto, Ivo Barroso, ao telefone, num misto de espanto e entusiasmo, ficou sabendo por este croniqueiro da brincante tradução de O Corvo por Reynaldo Jardim e Marilu Silveira, publicada numa das primeiras edições de Nicolau, e que ele desconhecia. Nela, entre outros estribilhos, há este, delicioso, para espantar corvos e outros bichos - Xô, urubu chato! Xô, urubu chato!, que só convence assim repetido, como é da natureza dos estribilhos.
Publicado em 1845, The Raven vem desafiando tradutores de todos os idiomas e de todos os continentes. E o que não espanta num acabado clássico - de todas as épocas. Seguramente um dos mais célebres poemas da língua inglesa, e de qualquer língua, por sua apuradíssima fatura, de artesania tão torturante quanto o tema a que se dedica, O Corvo é sobretudo a decifração estética de uma angústia arquetípica - a do nunca mais, a do nevermore e a do nothing more em que constitui, pela via da morte, o final colapso e o vácuo de toda experiência humana.
Mas o que Ivo Barroso talvez não saiba, a exemplo da divertida tradução de Reynaldo Jardim e Marilu Silveira, é de uma outra versão de O Corvo, esta bem mais misteriosa - a que Jorge Luis Borges teria engendrado em transparente castelhano ao celofane melancólico das tardes de Maipú, pouco antes de morrer em Genebra.
Lenda ou verdade, quem me deixou sozinho com esta curiosidade na mão, foi Néstor Perlongher, o barroquíssimo poeta argentino falecido em 1992, que afirmava tê-la lido, com um arrepio de gozo e encantamento, num pequeno jornal que não sabia o nome e nem recordava a data, lembrando apenas que era o jornal de um clube de enxadristas de Palermo.





