Wilson Bueno
Não chorem, não chorem pela Lebre em cujo coração o amor demais fincou bandeiritas agudas feito agulhas, não chorem porque ela se arrasta pelos caminhos não sendo sequer a memória esquiva da Lebre que foi, a Lebre.
De nada adianta chorar se a Lebre se aferra à certeza mortal de que Erivelto, o gato, seu namorado, é assim igual que uma mistura do Brad Pitt com o Tom Cruise. Ah, senhores, que andar baixo, o da Lebre, e meio bambo e um pouco arrastado, agora que ela vai, batida de amor e pela tarde, pelo inverno da desesperança batida vai, esgueirando-se pelo caminho, de tal modo e tão ao longo que até parece que a Lebre ficou mais comprida.
Nada, nada, é só o banzo da Lebre toda a vez que recorda o Erivelto, seu namorado, angorá matreiro, andando sabe-se lá com que gataria, o cúmplice, de mio rouco e apaixonado, viajando os beirais úmidos sob a lua enorme, só Deus entende junto ao qual o quanto de gozo e orgasmo, nas noites lá dele, longe dela e ao largo de seu regaço de Lebre perfumosa, representativa.
Arrastando as orelhas no chão, é como se a Lebre se perguntasse aonde iria dar assim molamba e túrgida, um caco o coraçãozinho seduzido e abandonado, mas a Lebre nem mais pergunta posto que são de Erivelto, nosso galã, todas as respostas.
Sombrio imaginar, mas a Lebre imagina, no mais sozinho da toca, enrolada em si feito um parafuso de tenso pêlo incolor, que ele segure na unha as deslumbrosas da meia-noite, gatorrachas vadias de boquinha lamê, metálicos bigodes grudando delas os insinuantes pescoços, torcendo-os mesmo em mordidas maceradas e de dentes como facas. Fosse isto um rito, uma coisa mecânica, ofício dos períodos férteis, tudo bem, o que não se admite é que arranque de Erivelto, o gato, semelhante entusiasmo. Ah, assim a Lebre não pode viver, assim a Lebre não pode viver mais.
Mas como fábula sem macaco não é fábula, apareceu o Macaco. Para sorte da Lebre, no caso.
Oferecia-se à Lebre para convencer Erivelto que já eram horas, tomasse tino e jeito, fosse fiel ao seu desejo, e voltasse aos braços da Amada, sem o que um animal jamais estará à altura de si mesmo, longe do vício e do suplício. Onde já se viu tamanha esbórnia, a gataria no cio varando a madrugada baixo guinchos e miasmas, muros e melífluos fluidos, baba, sangue, tesão? O Macaco estava com a corda toda.
A Lebre nem se fez de rogada, a cabeça de lado, quase encostada ao ombro, catita e borralheira, a pobre, a judiação da Lebre, nossa heroína, só fez que sim, com a cabeça e as orelhas lassas, nem voz brotava mais de sua garganta amorosa. E nessa hora, senhores, não há como um Macaco alegre e folgazão, pelo qual, claro, já toda a Lebre se arrepiava.
Não deu outra: correu logo na primeira noite à suruba gatimanhosa que se procedia no escuro, sob a lua de janeiro, e chamando Erivelto a um canto do telhado, rente ao qual se estendia o longo braço de uma árvore, o indicador apontando o caminho de casa, go back, go home, o Macaco era a própria autoridade. Não foi preciso muito - Erivelto - ou porque já estivesse cansado da folia ou porque para si só a Lebre mimosa - seguiu na frente. O Macaco atrás.
Ao vê-lo estropiado e triste, só a memória amassada do gato de outrora, a Lebre, como num insight, encontrou o caminho do meio - ali onde Erivelto era apenas Erivelto e não a invenção luxuosa que a sua carência desenhara no escuro. E mirando-o de frente, os grandes olhos melancólicos, devolveu-lhe a aliança, delicada.
O Macaco que era macaco em todos os sentidos já aparecia detrás da silhueta de Erivelto, encolhido e perfeitamente sentado, o sinuoso rabo, a pelúcia e o assombro de um gato preto pelo qual a Lebre já de há muito se apaixonara; um gato, preto, como que não? só que de narizinho um pouco amassado e de maxilar proeminente, além, claro, quando ria, dos dentes de cavalo.





