Wilson Bueno
Nunca é tarde para re-ver: concentrado, orgânico, ousado no que uma disposição lírica pode (e deve) ousar, Rodrigo Garcia Lopes com Visibilia (Editora Sete Letras, 62 págs.) como que tange uma maturidade que, sendo a de seu percurso biográfico, inevitavelmente vê-se (de novo, ver...) refletida no humano, demasiado humano, de uma escritura para além da palavra. Uma escritura que é quase a síncope da razão, este engodo, e suas quedas profundas no abismo.
Para quem esperava do polêmico poeta londrinense os vôos da vanguarda mais desabrida, os hologramas sintéticos das páginas internautas, o trash e o junky, o dirty e o down, leva um susto - Rodrigo Garcia Lopes impõe-se, desde a mirada/miragem de um estranhamento quase desgarrado, um rol de recusas: ao pós-moderno quase sempre mais modernoso que pós; aos batidos statements do novo - entre nós, o mais das vezes, velhíssimo; aos ditos/reditos trocadalhos do carilho das gerações oitentas & afins, e sobretudo o não ao não de juntar num mesmo arquivo, com Visibilia, o melhor da memória do olhar, seus enlevos e degredos. Sem os áridos pudores da geometria.
Ao contrário de Solarium, o primeiro livro do poeta - ainda que Visibilia não o traia, em essência - o que se vê aqui (de novo, ver...) é uma concentração que não perde de vista a expansão mais audaz, um condensare que se querendo humano, é mais chão e mais dentro, e anda por aí, sem gastar-se com os últimos éditos do Pífio Reino das Letras. E por isto é assim uma coisa bonita e calma, com um quê de escândalo em sua beleza aflita.
Não mais, como em Solarium, uma viagem atrás da outra, mas uma única viagem - esta do aqui e do agora, o mais búdico, em que a gente começa a sentir saudades do futuro: Tudo no espaço/ É passado. O tempo,/ pura distância,/ lento azul profundo./ Mesmo a chuva/ mais breve/ cai neste mundo. Inevitável o medir alturas com o seu calidoscópico primeiro livro, principalmente porque Visibilia, repito, não o trai, antes apura de Solarium a sua forma, aguça dele os seus instrumentos mais secretos.
Pasme, leitor, mas Rodrigo Garcia Lopes se revela, nos dois momentos em que divide o livro (Visibilia e Fugaz) uma voz assumida e poderosamente lírica de nossas Letras, de um lirismo que é a mais alta voltagem da palavra na cabeça, se é que me faço entender. Para a arte do verso, não importa o que seja a coisa senão o seu nome, e mais, muito mais que isso - o seu nome e a reverberação de seu nome nos nomes fulgurando nos amplos territórios da mente, como qualificou a alma, um dia, certo esquivo poeta antigo.
Com palavras/ nada se admira/ nem se aclara/ rara rara/ cada vez mais rala/ nesse diálogo mudo/ do mundo/ onde tudo/ a um tempo zera/ e conspira. Aí palavras equilibrando-se sobre palavras, e nelas pensando, como que faz do poema um sopro, o gosto do vento na pele, a palavra quase ar, (quasar?), aragem. Tudo passa só não passa a graça dessa sonora geografia...
Mas não nos enganemos: Visibilia não é flor que se cheire. Desde uma ordem aparentemente acomodada a seus limites, vos convida a uma reorganização do olhar, com todos os riscos e todas as (negras) delícias com que ver, às vezes, vertiginosamente vislumbra e vitupera. Ver pode que esperneie. Como num quadro de Dali secando ao sol.
Rodrigo não se faz de rogado: propõe e prova que é possível. Assim, por exemplo, em Sobre um ditado antigo: Vou dizer de novo o que disseram/ Para que a mente nunca esqueça/ Que um dia, folhas, nossos lábios se fizeram/ Relva, céu veloz, veludo e névoa espessa./ Essa fumaça no vazio é parecida/ com a outra que, vida,/ dura como dura o raio, quartzo/ que uma pupila dilata e irradia./ Quem diria, por exemplo,/ que sob a carne do incenso,/ no durame da tarde,/ o sândalo respira/ sem fazer nenhum escândalo.
Para além da superfície chapada das coisas, receito-vos Visibilia; para além da retângulo-quadradice da linguagem acadêmico-monográfica que mediocriza qualquer literatura, receito-vos Visibilia; para além do crochê miúdo com que o sanatório das letras tupiniquins se cospe e se agulha, receito-vos Visibilia. É uma ilha de delicadeza no tédio infinito e na violência explícita com que a ambiência cultural do país de Fernando Henrique Cardoso hormogeiniza e anestesia. Época nem um pouco apropriada para audácias de fundo.
Aberto ao maravilhoso encanto da palavra de cada manhã, simulacro & drama, o livro de Rodrigo Garcia Lopes, na sóbria concepção gráfica de Jussara Salazar, nos reconcilia com a produção mais recente - e desengraçada - de nossa poesia.





