Wilson Bueno
Os caruaís são expressivo mito originário da ilha de Marajó, no Pará, e se caracterizam por um problema fundamental - comem até três vezes o seu tamanho, eles que têm aproximadamente o tamanho de um cajá-manga.
Certos zoólatras, sobretudo os mais minuciosos, afirmam ter os caruaís cerca de 8 centímetros - dos pés chatos como patos até o topo do minúsculo morro, quase um calombo, no cocoruto da calva.
O alimento preferido dos caruaís é a jabuticaba noturna (mirtacea noctivaga) - violácea de tão negra - planta sediciosa, capaz de abrigar, colados aos galhos, os frutos maduros que, não suportando a própria doçura, explodem e libertam a baga suculenta que cai direto na boca dos bagres.
Tendo a rara jabuticaba como base de sua dieta, os caruaís não abandonam nunca o interior da floresta, ali onde elas amadurecem do tamanho de um limão - intensas, sumarentas, impensáveis.
Caruaí quer dizer guloso na língua dos índios e não há como estes monstrinhos de formas arredondadas e nariz-de-batata, andando os jabuticabais que avançam os galhos até cinquenta metros além do tronco e sob cuja comprida sombra os caruaís se refazem do último estrago.
Os nativos têm por eles um respeito doce, meio solene - acreditam constituam anteparo seguro contra a indigestão, uma crença provavelmente herdada dos primeiros habitantes do arquipélago, quase dizimados, no início do século, por uma epidemia de cólera.
Os caruaís nem dão por isso e comem, primeiro uma vez o seu tamanho, e logo a seguir duas e, a não mais poder, três vezes a vez deles sobre a Terra.
Os índios não escondem o riso ao relatarem o modo como os caruaís descem pelo tronco da jabuticabeira, para tombarem à fresca de sua sombra, inflados, redondos, a pança como que uma bexiga de oxigênio prestes a romper-se, o nariz esparramado na cara e, os pés, de pato.
E se algum tenha sido o excesso que se assassina, estes, garantem os nativos, igual as jabuticabas, ploft, explodem, ecoando à fresca da tarde como que o ruído de uma rolha expulsa pela boca de uma garrafa.
Mas a coisa mais bonita do mundo é o acasalamento dos caruaís adultos, descrito pelo biólogo canadense Henri-John Laparre como um espetáculo para além de toda ciência - um lambe do outro o cocoruto da calva e ambos fogem, e se encantam, e se iludem, e se escapam, e se tocam e de novo se lambem e vão ficando tão intensamente famintos que um acaba comendo do outro o cocoruto, aquele, sublime.





