Wilson Bueno
Diz o poeta Höederlin, em tudo um sábio, que o homem nasceu para habitar poeticamente este nosso mundo insensato. Aí a função humana e sua (afirmativa) vitória sobre a natureza. Portanto, até mesmo antes da poesia, como se fosse possível tamanho tempo pretérito, nossa destinação de poetas já se cumpria. Irascível e orangotango, o homem primal, catando piolhos na cabeça do macaco ao lado, já praticava, soberano, seu direito à poesia.
Num livro precioso, recém-publicado na Argentina, El Poema Peregrino (35 págs., Veinte e Uno López, 1998) o ensaísta uruguaio Huidoro Agra consegue, através vôo breve e minucioso, refletir, com raro apuro, sobre a arte da poesia engastada ao ofício de viver feito uma alma. É desse modo e com este ímpeto que o poeta grego geme a lira atordoada, náufrago do Mar Egeu, aos cinco ventos, a gritar, joguete entre-ondas, que não havia mar mais heróico e nem mais grada a aventura que não fosse a de morrer neste mar.
E não há como não ser radical em poesia, mesmo porque radical remete a raiz, o lugar de origem do homem, seu topos primeiro, e aí devemos estar, inteiros e prontos, nem que o céu desabe sobre nós. Isto parece nos dizer, a todo tempo, ao longo do pequeno livro, a reflexão medida de Agra, em síncopes e curtos-circuitos de aguda perspicácia. Como isto, por exemplo: Ser imantado de poesia, desdizê-la ou negá-la ainda é uma forma de viver poético que o homem encontrou, mesmo que sujo de suas próprias sombras, ainda que úmido de suas sobras.
Mas o que, entre outras coisas, chama atenção em El Poema Peregrino é a viagem na qual Huidobro Agra reviaja as paisagens do Oriente, buscando, com não pequena argúcia, o mote perfeito em que se conjugam, zonzos e abismados, vida e poesia, que no fundo não passa de instrumento cuidadoso que ao homem foi dado para pensar, e viver, a in-sustentável leveza do ser.
Não estamos falando, necessário lembrar, de tolos cândidos derramando atrás de si sonetos pelos tapetes. O que se diz aqui, e no livro de Agra se afirma de um modo quase bélico, é este outro sentido, o sentido com que a vida pode ser um ato poético contínuo e revolucionário capaz de desestabilizar todas as coisas. E é precisamente neste entreato poético, neste acting out demolidor, que um homem pode se olhar de frente e de frente chamar o seu nome.
Primeiras neves -/ Meu maior tesouro,/ Este velho penico - resume, mestre da bazófia e do encanto, o insuperável Kobaiashi Issa, citado por Agra, no lúcido livrinho portenho, para ilustrar outra de suas assertivas - as estações do ano, ao tempo em que existiam estações do ano, marcavam ritos precisos e inadiáveis de prática poética. Sabemos que a poesia oriental é basicamente um rito de reverência às cinco estações do ano, incluído o Ano-Novo, tido e havido, entre os japoneses sobretudo, como clara e delimitada estação. E não foi no Ano-Novo Lunar que o Desperto chamou a si todos os bichos do mundo e, pela ordem de chegada, elegeu os primeiros doze como símbolos, ora dúbios ora melancólicos, do horóscopo chinês?
Para Agra aí estão o pincel irrepetível dos mestres de Kyoto, as canções dos cabarés do porto de Fukushima, a lua grávida sobre Mesai, as plantações de arroz dos campos enlameados de Ikedo, o livro vivo no metrô de Tóquio, a choupana de Bashô construída com o fervor das mãos.
Do inverno de Buson (O ruído do rato/Andando sobre o prato - /Que frio!) à abafada atmosfera com que Issa exalta (exalta?) o verão (Vou sair - / Divirtam-se fazendo amor,/ Moscas da minha casa!), passando por quantas primaveras se fizerem necessárias, a poesia no Oriente foi sendo, logo de cara, mais que a retórica e o rapapé lítero-canório dos salões ocidentais, sobretudo hispano-lusos, uma prática entranhada na vida como o pêssego e o seu caroço.
Para deixar a casa paterna, só com versos; para desposar a mulher amada, só com versos; para exorcizar o perigo iminente, só com versos; para saudar o guerreiro adversário, ainda e sempre, só com versos. E foi deste modo, como assinala Agra, que a poesia que vige na vida feito o céu e o firmamento, fundou sua base mais cristalina e ensinou a todo homem que este só estará à sua altura se abraçar no mesmo abraço a si e a humanidade inteira.
Guerra de papel/ O mundo queimou Hiroshima/ 200 mil cadáveres secos.
No haicai famoso, de um mestre do Japão contemporâneo, Yukio Hoshida, mesmo daí a poesia não deserta - ainda uma vez necessária, ainda uma vez fundamental, ofício em luminância, capaz de mostrar ao homem o homem mesmo - nem sempre em cores. Como neste caso, só (só?) o rosto de um ódio guardado em segredo.





