Wilmar Klein
Recentemente, em dois domingos consecutivos, o Fantástico apresentou matérias que se propunham a discutir se os pais são, de fato, tão influentes na educação dos filhos como geralmente se acredita ou, ao contrário - como afirma um livro (de autora americana, eu acho) - são os amigos da criança que exercem uma influência maior nesse processo. Coloco a questão assim, vagamente, pela simples razão de que, levando em conta a programação oferecida, não ligo a tevê aos domingos e só tomei conhecimento das matérias porque, nas duas ocasiões, eu estava num restaurante que não se importa em incomodar os clientes como este tipo de cardápio televisivo. Além disso, um restaurante - e ainda mais se você está acompanhado - não é o melhor lugar do mundo para prestar atenção a reportagens de tevê. Não obstante - tanto quanto pude entendê-la - propus a questão a mim mesmo e concluí que, no meu caso, ao menos no período que vai da adolescência ao início da idade adulta, nem meus pais nem meus amigos tiveram maior influência sobre a minha formação. Como não me julgo nenhum animal raro (ainda que não me situe entre os espécimes mais vulgares), penso que algumas teorias precisariam ser revistas, em especial no que diz respeito a afirmações categóricas.
Amigos - para começo de conversa - não os tive nem na infância nem na adolescência. Tive, quando muito, conhecidos. Quanto aos meus pais - pessoas simples e tão bem-intencionadas quanto despreparadas - nunca souberam lidar direito com um adolescente metido a escritor e, do ponto de vista deles, com gostos bem esquisitos como, por exemplo, passear em cemitérios em dias nublados (convém lembrar que no final da década de 60, início da de 70, quando eu tinha 14, 15 anos e comecei a fazer essas deambulações melancólicas, ainda não existiam os darks e os góticos). Creio, portanto, que as influências maiores que recebi foram de pessoas cujas idéias e atitudes eu absorvia através dos livros, dos discos, dos filmes, das revistas e dos jornais. Como todo adolescente típico, escolhi para mim os modelos mais radicais, mas revolucionários e também os modelos mais autodestrutivos. É claro que o fato de a minha curiosidade e, por consequência, a minha busca de informações novas serem sensivelmente maiores do que a média dos adolescentes que conheci, bem como uma acentuada propensão ao alcoolismo, ajudaram-me muito a fazer essas escolhas e absorver-lhes as influências. Assim, enquanto outros garotos da minha idade ouviam Beatles, Stones ou mesmo os três Js (Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison), liam Eram os Deuses Astronautas? e viam no cinema o road movie hippongo Sem Destino e 2001 - Uma Odisséia no Espaço, eu estava mais interessado em Velvet Underground, William Burroughs, Rimbaud, Lautréamont, Kraut rock, Tarkovski e começava a conhecer a música de Stockhausen, Cage, Xenakis... (Não vai aqui nenhuma intenção de exibicionismo cultural: é que sempre tive desconfiança do que a mídia consegue assimilar com facilidade e rapidamente transformar em mercadoria.)
Como todo adolescente normal, também fumei maconha e traguei, e usei outras drogas (não é uma afirmação apologética: quando digo que é normal usar drogas, não significa que as recomendo ou minimizo as consequências do seu uso, e sim que todo mundo, de alguma forma, as utiliza, e, se não forem drogas como cocaína, maconha, álcool - que não é menos droga do que as outras - nicotina, cafeína, benzodiazepínicos, etc., será o uso do trabalho, do sexo, da comida, da religião, do poder como drogas). No que me diz respeito, o álcool levou a melhor e eu, a pior - o que ampliou a minha atração por alcoólatras, junkies, suicidas e loucos famosos ou não, que, na minha opinião, eram sempre gente muito interessante.
Não vou alongar muito esta história (até porque não há espaço para tanto) e, assim, deixo de lado os detalhes sobre a progressão do meu alcoolismo, os meus internamentos psiquiátricos, a evolução da minha depressão, as loucuras que cometi e como consegui escapar a esse círculo vicioso e, por fim, fazer uma triagem das influências que (es)colhi (tanto quanto pude es/colhê-las), de modo a conservar apenas o que nelas havia de realmente aproveitável. Não as rejeito, portanto, e talvez por isso mesmo o título deste texto nem seja adequado. Mas, se for para ver por esse ângulo, posso dizer que me esmerei tanto em colher más influências que, em certo ponto, passei a ser, para os outros, influência pior do que aquelas que absorvi. Mesmo hoje em dia, sinto um certo gostinho em perceber que a experiência e alguma maturidade não foram suficientes para fazer de mim um bom exemplo, prontamente aceito.





