Wilmar Klein
Na semana passada, viveu-se a comoção de duas tragédias. Em relação à primeira - o desabamento do teto de um templo da Igreja Universal do Reino de Deus em Osasco - o bispo Edir Macedo, líder da seita, manifestou sua perplexidade: Se fosse uma discoteca, se as pessoas estivessem bebendo ou usando drogas, até teria uma explicação. Mas todos estavam ali orando. Não entendo o motivo dessa tragédia. - E não entende mesmo: como poderia o bispo entender que algo tão prosaico como a negligência humana, e não a justiça divina, faça desabar um teto justamente sobre uma platéia constituída por suas ovelhas e contribuintes? Fosse - como sugeriu Macedo - o teto de um templo da perdição, então seria a ira de Deus em ação (quem sabe menos por causa do álcool e das drogas do que por causa da música techno vagabunda que se ouve nesses lugares). Pena que sou meio míope (ao contrário, Deus - segundo dizem - enxerga tudo) e não consigo ver direito a que se refere o percentual de 10% que aparece com enorme destaque num cartaz acima do palco numa das fotos da igreja desabada, ou seria tentado a imaginar que, na lógica de Deus, está previsto algum tipo de punição contra tirar, em Seu nome, dinheiro de gente pobre e crédula. Logo, porém, descartaria tal hipótese, pois a cabeça do bispo e de seus pastores continuam ilesas e, de resto, eu prefiro me manter agnóstico.
Pois bem... dias depois - mais pavorosa ainda - acontece, na rodovia Anhanguera, era, a tragédia envolvendo dois caminhões (um deles carregando 6.000 litros de gasolina e 26.000 de óleo diesel) e dois ônibus que transportavam romeiros vindos de Aparecida. Diante das imagens e reconstituições do acidente - que foram vistas pela TV antes e depois de outras tragédias como, por exemplo, o horário político gratuito, a novela das oito (isto é, das nove e vinte) e desses programas zoológicos tão em moda (com ratos, leões , peruas, etc.) - muita gente manifestou perplexidade semelhante ao do bispo Edir, se perguntando como Deus pode permitir que pessoas boas e simples, tementes a Ele e pródigas em orações, morram de forma tão estúpida, enquanto uma porção de safados - desde as altas esferas da sociedade até a arraia-miúda - grassa por aí, sem vestígio de tropeço ou escoriação.
Quando ocorrem tragédias assim (e sempre ocorreram, só que agora a cobertura jornalística está melhor), as pessoas - cada uma segundo a sua crença ou descrença - buscam as explicações que julgam mas adequadas, seja através de laudos técnicos (que sempre oferecem a possibilidade de responsabilizar alguém, ainda que não raro inutilmente) ou da suposição resignada de que, embora não estejamos entendendo porcaria nenhuma, Deus sabe o que faz. Enfim, qualquer explicação parece melhor do que admitir que, em última instância, tais coisas não têm explicação: pura e simplesmente acontecem, tanto quanto (não obstante as responsabilidades humanas eventualmente envolvidas) poderiam não acontecer (talvez o teto do templo em Osasco desabasse quando não houvessem fiéis no local, ou a igreja mudasse de endereço antes de ocorrer a tragédia, etc, e talvez a carreta com combustível não tombasse, talvez naquela hora nenhum ônibus estivesse passando...)
Alguém já disse que isso que chamamos acaso talvez seja a lógica de Deus, porém, como tal afirmação não é verificável, que mais nos resta senão constatar que a coisa toda aparentemente não tem, no fim contas, nem lógica, nem razão teológica, nem finalidade (razão teleológica); e fatos referentes à existência tais como doença, velhice e morte - mesmo não ocorrendo de forma espetacular - são sempre (apesar da fé ou da engenhosidade da explicação) absurdos e estúpidos. Seria, de fato, muito lamentável concluir que Deus tenha participação nisso e queira que nos sintamos igualmente absurdos e estúpidos perante as coisas que não nos deu a capacidade de entender e geralmente nos chegam nos intervalos entre os comerciais de TV.





