Do filósofo pré-socrático natural de Agrigento (colônia dórica da Sicília), que viveu entre cerca de 490-435 a.C., Nietzsche nos oferece, em ‘‘O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega’’ (aqui na tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho, em ‘‘Os Pré-Socráticos’’, vol. I da col. ‘‘Os Pensadores’’, Abril Cultural, 1973), o seguinte retrato: ‘‘Empédocles é de família agonal; em Olímpia fez sensação. Apresentava-se vestido de púrpura, cingido de ouro, com sandálias de bronze nos pés e uma coroa délfica na cabeça. Usava os cabelos longos; seu rosto era imutavelmente sombrio. Sempre se fazia acompanhar de servidores. Em sacrifício de vitória, ofereceu um touro feito de farinha e mel, para não infringir seus princípios’’ (acreditando na ‘‘unidade de tudo o que vive’’, Empédocles abominava o hábito de comer carne, considerando-o uma forma de autofagia). ‘‘Tentou, evidentemente, converter todos os gregos à nova maneira de viver e de filosofar dos pitagóricos; aparentemente, tratava-se apenas de uma reforma dos ritos sacrificiais. Em Olímpia incumbiu um rapsodo de cantar seus catharmes que começavam com uma apóstrofe a seus amigos de Agrigento: ‘‘Adeus! Não é mais como mortal, mas come deus imortal que passo entre vós, venerado por todos, como é justo, ornado de bandeirolas e de verdes guirlandas. E, mal chego às cidades florescentes, sou venerado por todos, homens e mulheres; aos milhares, me seguem, para aprender o caminho da salvação, alguns pedindo oráculos, outros fórmulas que curem tantas doenças das quais sofrem os cruéis tormentos. Mas por que demorar-me nessas coisas, como se tivessem importância, quando estou tão acima dos miseráveis mortais!’’ - Bem convencido, este cidadão que, no layout e no marketing pessoal, devia ser o Walter Mercado de sua época. Conta-se, inclusive, que teria se atirado na cratera do Etna, para provar que era uma divindade (Walter Mercado nunca faria isso).
Seja como for, o fato é que Empédocles tornou-se uma lenda em seu tempo, e ele próprio contribuiu para alimentar essa lenda atribuindo-se poderes mágicos. Como filósofo, fez uma síntese até então inédita: substituiu a busca de um princípio único das coisas pelos quatro elementos (fogo, terra, água e ar) e os colocou em movimento segundo a tensão dinâmica e alternância entre Ódio e Amor (desagregação/agregação dos elementos), e, ainda, conseguiu a proeza de conciliar as idéias antagônicas de Parmênides e Heráclito quanto ao ser (o primeiro afirmava que o ser é imóvel e o segundo que era perpétua transformação). Sabe-se que escreveu dois poemas em jônico, ‘‘Sobre a Natureza’’ e ‘‘Purificações’’, nos quais expôs seu pensamento - e, me parece, é mais como poeta do que como filósofo que Empédocles continua atraente, em especial pelo tom trágico, soturno, depressivo de seus versos, dos quais só restaram fragmentos conservados nas obras de autores que lhe são posteriores (como, por exemplo, Aristóteles, Plutarco, Aécio, Hipólito, Simplício, Sexto Empírico, Clemente de Alexandria, entre outros).
Confira-se a força deste fragmento das ‘‘Purificações’’ (traduzido por José Cavalcante de Souza): ‘‘É da Necessidade oráculo, de deuses antigo decreto,/eterno, bem selado com amplos juramentos:/quando um, por loucura, com sangue amigos membros manchou,/e por ódio o que falso juramento tenha feito,/demônios que tiveram de partilha uma longa vida,/dez mil estações eles longe dos abençoados erram,/nascendo pelo tempo em toda espécie de formas de mortais,/que penosos caminhos da vida permutam entre si./Pois força de éter os persegue em direção do mar/e mar em solo de terra os vomitou, e terra em raios/de sol luminoso, e este os atirou em turbilhões de éter;/outro de outro os recebe e os odeiam todos./Destes também eu agora sou, dos deuses banido, errante,/em furioso ódio tendo confiado.’’ - Difícil imaginar, entre antigos ou modernos, poeta tão intenso e tão trágico.
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Estava lembrando que, certa vez - faz tempo, isso - para atender à necessidade de uma obscura - e já extinta - banda aqui de Curitiba, que queria mostrar no palco alguma coisa bem diferente, planejei uma espécie de punk-ópera com texto de Empédocles e participação de pessoas que naquela época estavam começando a trabalhar em teatro. Numa das cenas, por exemplo, eu utilizaria, com locução em off, estes fragmentos de ‘‘Sobre a Natureza’’: ‘‘Em noite solitária, de olhar cego...’’ (...), ‘‘Nela muitas cabeças sem pescoço germinaram e nus erravam braços desprovidos de ombros e olhos sozinhos vagueavam privados de fronte’’ (...), ‘‘(monstros) de pés retorcidos e inumeráveis mãos’’ (...), ‘‘Muitos de ambíguo rosto e de ambíguo peito nasciam,/bovinos de figura humana, e ao contrário surgiam/humanos de cabeça bovina, híbridos em parte homens,/em parte raça de mulher de umbrosos membros adornada.’’ Não precisei muito para convencer-me de que, visualmente, uma tal ‘‘ópera’’ só funcionaria como produto de uma parceria entre Peter Greenaway, Francis Bacon e o Fura dels Bals, e assim o projeto do espetáculo - na ocasião, diluído em muito álcool compartilhado com o pessoal da banda (que, diga-se de passagem, bebia melhor do que tocava) - restou tão somente como página do meu almanaque de pesadelos.

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