Wilmar Klein
Embora alguns leitores impliquem com esse meu hábito de recorrer a citações (uma implicância, segundo penso, injustificada, até porque tenho suficiente humildade para reconhecer que aquilo que cito é, na quase totalidade dos casos, bem superior àquilo que eu mesmo produzo, sobre ser mais coerente), começo, mais uma vez, com uma citação. Escreveu (ou disse), certa ocasião, o filósofo Paul Veyne que felicidade são momentos de felicidade, ou melhor, de esquecimento, e este esquecimento é uma absorção de uma atividade que não coloca em jogo nenhum interesse material ou metafísico. De acordo com esse ponto de vista, Veyne vê a própria cultura como um conjunto de máquinas que fabricam para todos os gostos ocasiões de se absorverem, momentos de absorção, que formam a moeda comum realista da mítica felicidade positiva. Assim também, prossegue o filósofo, os momentos de absorção completa, prazer amoroso ou estado extático são, sob o nome de ventura, o superlativo da felicidade.
O que Veyne reprisa aqui, com outras palavras, é, em larga medida, o discurso de Pascal acerca do divertimento. Com fina ironia, o autor dos Pensamentos e das Provinciais observa: Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, como se faz que não esteja triste neste momento, que se encontre livre de tão penosos e inquietantes pensamentos? Não há motivos para estranharmos; acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, e ei-lo a pegá-la de modo a marcar um ponto. Como quereis que pense em seus tormentos, se tão grande assunto o preocupa? Trata-se de uma ação, em verdade, digna de encher sua grande alma e de expulsar qualquer outro pensamento de seu espírito. - Diante disso, poderíamos perguntar-nos como pode o homem consolar-se com tão pouco. O próprio Pascal se fez esta pergunta e concluiu que consolamo-nos com pouco porque pouco basta para afligir-nos.
Pois bem... do que (e a partir do que) foi dito até aqui podemos deduzir, entre outras coisas, que: 1) não existe - e a experiência demonstra-o fartamente - felicidade em tempo integral, pois é ela tão-somente intermitências; 2) ainda que a nossa capacidade de absorção não seja explicação suficiente para as episódicas manifestações de felicidade, parece-me bastante razoável admitir que boa parte dela (ou mesmo a maior parte) pode ser atribuída a um estado de alheação ( ou, se quiserem, de alienação); 3) tal alheação não é, em si, condenável - é apenas humana; 4) tem-se o péssimo hábito de buscar razões muito elevadas, muito etéreas, para explicar a felicidade, e é por isso que muita gente não se contenta com a que lhe é acessível - e isso também é tipicamente (e infelizmente) humano; 5) de qualquer modo - e se isso servir do consolo - não somos, na maior parte do tempo, nem felizes nem infelizes: somos apenas indiferentes; 6) e por último: quando você se sente feliz, a pior coisa que pode fazer é investigar as razões, buscar o cerne da sua felicidade (o mais fácil de acontecer como resultado de tal busca é você não encontrar cerne nenhum e destruir o revestimento sensível da felicidade - aliás, o bom senso sempre nos disse que ela é coisa frágil).
P.S.: Voltando às citações, gosto muito de citar esta definição cujo autor ignoro e se refere justamente à questão da autoria: Um autor é um homem que toma dos livros tudo aquilo que passa pela sua cabeça. E é por isso mesmo que muito me agradaria assinar embaixo, a título de endosso, a opinião alheia segundo a qual todo mundo poderia se divertir um bocado se não estivesse tão preocupado em ser feliz.





