Na semana passada, iniciei uma pequena lista de músicos que, não sendo, a rigor, nem artistas pop nem músicos eruditos, destacam-se pela criatividade de sua produção, voltada ao experimentalismo. Eis aqui, para encerrar a lista, mais quatro nomes que recomendo àqueles que já não suportam a mesmice do que ouvem nas FMs e na MTV.
Paul Schutze - Músico nascido na Austrália, onde foi membro, no início dos anos 80, do grupo de jazz de vanguarda Laughing Hands, em que atuou como percussionista e manejou os instrumentos eletrônicos. Em 85, passou a compor música para cinema, tendo assinado as trilhas de mais de 20 filmes (entre eles, ‘‘Isabelle Eberhardt’’ e ‘‘The Tale of Ruby Rose’’- este último lançado em vídeo no Brasil, com o título ‘‘Consciência Selvagem’’). Em 89, gravou, ainda na Austrália, o disco ‘‘Deus Ex Machina’’, que lhe deu projeção internacional (o que, no caso de compositores inventivos como ele, não significa, de modo algum, êxito comercial). Vieram depois ‘‘The Annihilating Angel’’(90), ‘‘New Maps of Hell’’(92), ‘‘The Rapture of Metals’’(93), ‘‘The Surgery of Touch’’(94), ‘‘Apart’’(95), ‘‘Site Anubis’’(96), ‘‘Nine Songs from the Garden of Welcome Lies’’(97), entre outros.
Sua música é de difícil classificação (mistura eletrônica, jazz, rock, música étnica, som industrial, ‘‘ambient’’ e outros gêneros, mas nenhum deles serve para definir o seu trabalho). Uma boa introdução à obra de Schutze é uma caixa com seis CDs recentemente lançada pela gravadora americana Tone Casualties (comandada pelo artista da animação e músico húngaro Gabor Csupo, co-fundador da Klasky Csupo, Inc., empresa que tem criado e produzido para a TV séries como ‘‘Os Simpsons’’ e ‘‘Duckman). A caixa traz os discos ‘‘Deus Ex Machina’’, ‘‘Regard: Music for Film’’, ‘‘Isabelle Eberhardt’’, ‘‘The Annihilating Angel’’, ‘‘The Surgery of Touch’’ e ‘‘Green Evil’’. Recomendo também o jazzístico e soturno ‘‘Site Anubis’’, gravado com o extraordinário grupo Phantom City.
Bill Laswell - Legendário baixista americano, é um músico e compositor eclético, transitando com igual desenvoltura por território que vai do jazz à música eletrônica experimental. Possui uma extensa discografia (inédita no Brasil), que inclui trabalhos solo, projetos desenvolvidos com outros músicos (entre eles, o supergrupo Phantom City, acima mencionado) e incontáveis participações especiais. Alguns títulos que merecem toda a atenção: ‘‘Ambient Compendium’’, ‘‘Silent Record’’, ‘‘Sacred System Chapter One’’, ‘‘Oscillations’’, ‘‘Psychonavigation’’ (em parceira com Peter Namlook).
Graham Bowers - Compositor e artista multimídia natural do País de Gales, lançou em 95, pelo selo britânico Red Wharf, o seu primeiro CD, ‘‘Of Mary’s Blood’’, volume inaugural de um trilogia que ‘‘Transgression’’ e ‘‘Eternal Ghosts’’ (lançado este ano) completam. Bowers faz música eletroacústica abstrata, complexa, parecendo às vezes trilha sonora de um pesadelo. Eletrônica combinada com instrumentos convencionais (guitarra, saxofone, piano, cello, etc.), aos quais, no entanto, confere tratamento pouco convencional. Para descrever a trilogia de Bowers seria preciso recorrer às mais variadas referências: compositores eruditos contemporâneos como Xenakis, Varese e Berio, bandas estranhas como Nurse With Wound, AMM e Morphogenesis, música concreta, os trabalhos de David Jackson, Peter Warlock, Jonh Ireland, Herbert Distel - mas tudo isso se presta a meras aproximações. Para avaliar Bowers corretamente, somente ouvindo - e várias vezes.
Bruce Gilbert - Ex-guitarrista da banda ‘‘cult’’ Wire (formada em 76 com Rebert Gotobed, Graham Lewis e Colin Newman) e, depois, do Dome e do Duet Emmo, Gilbert tem desenvolvido uma notável carreira solo, que abrange desde música para balés modernos até discos de radical experimentalismo eletrônico, como é o caso do álbum ‘‘In Esse’’ (lançado pela gravadora alemã Mute no final de 97), que chegou-me às mãos na semana passada. O disco, magrinho, com capa preta de papelão, tem apenas três faixas: ‘‘Soli’’, ‘‘Bassi’’, ‘‘Muzi’’. A primeira, com mais de 40 minutos de duração, está muito próxima da não-música e é de difícil audição, em especial pelo tenso arranjo de suas massas sonoras e distorções. Mas justifica plenamente o esforço. As outras duas faixas são relativamente mais acessíveis, mas, mesmo assim, nada ficam a dever às experiências mais radicais realizadas nos anos 70 por bandas como a britânica Cabaret Voltaire e a australiana SPK.
Para saber mais sobre os artistas aqui listados, consulte os seguintes sites:
Tone Casualties (Paul Schutze): www.tonecasualties.com
Rough Trade (Bill Laswell): www.roughtrade.com
Red Wharf (Graham Bowers): www.red-wharf.demon.co.uk
Mute Liberation Technologies (Bruce Gilbert): www.mutelibtech.com/mute/

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