Wilmar Klein
Música ‘‘difícil’’ (1)
No elástico território entre o pop/rock e a música erudita contemporânea, e não raro amalgamando elementos de ambos, tem surgido, nas três últimas décadas, músicos inovadores, experimentalistas e, por isso mesmo, pouco ou nada comerciais - o que explica o fato de seus discos nunca serem editados no Brasil e mesmo no Exterior terem um público bem limitado em comparação com o dos produtos lançados pelas ‘‘majors’’ e amplamente divulgados pela mídia. Nada a ver, portanto, com britpop (Oasis, Blur, etc.), música eletrônica para lotar estádios (Prodigy), DJs da moda, trilhas para cinema mainstream (como as de ‘‘Arquivo X’’, ‘‘Perdidos no Espaço’’, ‘‘Godzilla’’), rap e hip-hop moderninhos, rock (pseudo-) alternativo, trip-hop fácil - enfim, nada a ver com o ‘‘cardápio’’ da MTV. Se você não vê, de fato, nenhuma grande novidade nisso tudo que mencionei, nada que possa ser considerado realmente criativo, então a pequena lista que ofereço a seguir (e será completada na próxima semana) talvez lhe possa ser útil.
Cabaret Voltaire - Banda formada em Sheffield (Grã-Bretanha) nos anos 70. No início, proto-eletrônica, incorporando procedimentos de música concreta e atitude punk. Recomendo os primeiros discos (anteriores à saída de Chris Watson): ‘‘Cabaret Voltaire 1974-1976’’ (com material gravado no apartamento de Watson, na época em que ele e seus companheiros - Richard H. Kirk e Stephen Mallinder - ainda não sabiam tocar nenhum instrumento musical, mas compensavam este fato fazendo colagens sonoras altamente criativas), ‘‘Mix Up’’ e ‘‘Red Mecca’’. Kirk, Mallinder e Watson prosseguiram em carreiras solo, porém com trabalhos menos ousados.
Einsturzende Neubauten - Surgiu em Berlim no início dos anos 80. Referência obrigatória em matéria de som industrial/experimental. Os dois primeiros álbuns (‘‘Kollaps’’, de 81, e ‘‘Zeichnungen des Patienten O.T.’’, de 83) são crus, agressivos, essencialmente percussivos. A partir de ‘‘Halber Mensch’’ (85), o seu som torna-se mais diversificado, embora a percussão (feita com sucata, serras, lixadeiras, martelos, papel amassado, grades de carrinhos de supermercado, tubos e chapas de metal, navalha sobre espelho, etc.) ainda seja a ‘‘marca registrada’’ da banda. Sugiro, além de ‘‘Halber Mensch’, ‘‘Funf auf der nach aben offenen Richterskala’’ (89), ‘‘Tabula Rasa’’ (93), e ‘‘Ende Neu’’(96).
F.M. Einheit - Membro do Neubauten, é um especialista em percussão e eletrônica, tendo realizado notáveis discos solo ou em parceria com outros músicos. A conferir: ‘‘Stein’’, ‘‘Deutsche Krieger’’ e ‘‘Odysseus 7’’.
Test Department - Grupo inglês que mistura eletrônica, som industrial, música clássica e música folclórica (a gaita de foles é uma presença recorrente em seus discos). Seus melhores trabalhos, na minha opinião, são ‘‘Matéria Prima’’ (ao vivo, mas parece gravado em estúdio), ‘‘Terra Firma’’ e o oratório ‘‘Pax Britannica’’. A evitar apenas o CD ‘‘Legacy’’, compilação de ‘‘singles’’ feitos para pistas de dança que destoa completamente do estilo e da qualidade do grupo. Em atividade desde o início dos anos 80, lança até o fim de 98 um álbum em parceria com o músico Vince Kosa.
Laibach - Banda da Eslovênia, de alto teor político, postura incômoda (faz críticas à democracia e ao capital, incorpora elementos do imaginário nazista, veicula idéias caras à extrema-direita, etc.) e ambígua (ao mesmo tempo, recicla - de maneira bem interessante - a música pop convencional). O que o Laibach faz, grosso modo, pode ser chamado de techno marcial (com direito a uma certa pompa sinfônica), e é a única banda de orientação techno que consigo não apenas suportar, mas apreciar. Discos recomendados: ‘‘Let It Be’’(honrosa exceção: este disco chegou a ser lançado, em vinil, por aqui, o que se explica - em parte - por trazer releituras de músicas do LP homônimo, dos Beatles), ‘‘Sympathy for the Devil’’ (capa no estilo realismo socialista e várias versões - uma mais estranha do que a outra - do hit dos Stones), ‘‘Opus Dei’’ (o mais marcial de todos) e ‘‘Kapital’’ (mostrando que um álbum de música dançante pode ser inventivo).
Obviamente, não espero, com uma simples lista, ‘‘fazer a cabeça’’ de pessoas que, como eu, enjoaram da música que frequenta as FMs, as paradas de sucesso e os videoclipes exibidos na TV. Por isso mesmo, convido-as a conhecer melhor o pessoal que mencionei através dos seguintes sites:
Mute Liberation Technologies (site da gravadora alemã Mute, que tem em seu catálogo CDs do Cabaret Voltaire, Neubauten e Laibach):
www.mutelibtech.com/mute/.
Invisible Records (discos do Test Department e F.M.Einheit):
www.invisiblerecords.com.
E, como já disse, na semana que vem tem mais.

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