Wilmar Klein
Quem mandou, quando eu era criança, tirar nota 10 nas redações escolares e botar na cabeça que seria escritor? Parecia-me então uma opção lógica: escrever era a única coisa que eu sabia fazer bem, portanto devia fazer disso uma profissão e esforçar-me para ser bem-sucedido nela. Não demorei a descobrir que, no Brasil, só uma meia dúzia de autores era bem-sucedida, ou seja, vendia livros em quantidade suficiente para viver confortavelmente e apenas de literatura. Descobri também que esses autores não eram necessariamente os melhores - raramente o eram. Os demais, eu os dividia em duas categorias: a dos que eram respeitados e elogiados pelos críticos, mas lidos por uma minoria ( e põe minoria nisso), e - categoria muitíssimo mais ampla - a dos que não mereciam ser respeitados nem lidos, porque eram escritores medíocres. Como eu não queria ser nem uma coisa nem outra, fui ser jornalista, embora, no fundo, nunca tenha me considerado como tal. Odiava fazer reportagens e entrevistas, e nunca me interessei por política, economia ou qualquer outro assunto que não dissesse respeito às artes e à cultura.
Sem querer contar vantagem, li aos 10 anos de idade a Odisséia, de Homero; aos 11, a Tutaméia, de Guimarães Rosa; aos 12 ou 13, estava lendo Nietzsche; e, nesse meio tempo, também li coisas mais amenas como toda a obra de Edgar Allan Poe e a maior parte da de Franz Kafka. Se eu entendi direito o que li, é outra conversa, mas o fato de ter conhecido as obras de autores tão notáveis forneceu-me modelos elevados e a sensação, sempre crescente, de que nunca conseguiria escrever nada tão bom quanto o que eles costumavam jogar no cesto de lixo (aqui excluo Homero, porque não sei como ele escrevia e até hoje pairam dúvidas quanto a ele ter escrito alguma coisa ou mesmo existido, e, salvo engano, os gregos daquela época não usavam cestos de lixo). Essa sensação de impotência perante o talento alheio levou-me a procurar modelos que eu julgava mais próximos da minha capacidade de expressão: já não queria ser um gênio da literatura; ser um Jack Kerouac ou um William Burroughs parecia-me de bom tamanho. É claro que nunca cheguei nem perto, e então, em desespero de causa, disse para mim mesmo: se não posso ser um grande escritor, vou ser um p... dum escritor mercenário, desses que escrevem em linguagem fácil as histórias banais que o chamado grande público quer ler. Porém, que fazer se sou incapaz de inventar uma história, qualquer história, mesmo que seja a minha? (Há quem ache que um relato da minha ativa como alcoólatra e dos meus 17 internamentos em hospitais psiquiátricos renderia um livro bem interessante; agradeço a sugestão, mas eu precisaria ser bem mais vaidoso do que sou para acreditar nisso.)
Cá para nós, sabem do que eu gostaria mesmo? Eu gostaria de produzir um livro cujas páginas todas seriam espelhos e que o leitor poderia utilizar para coisas prosaicas como, por exemplo, se ver enquanto penteia o cabelo ou faz a barba. Um livro no qual, a exemplo do vampiro diante do espelho, eu não estaria refletido - a menos, é claro, que, num acesso de exibicionismo que muito me atrai, eu resolvesse fazer algo tão idiota como uma manhã de autógrafos.





