Wilmar Klein
No livro X das suas Confissões, Santo Agostinho discorre sobre a tríplice tentação representada pela concupiscência da carne, pela concupiscência dos olhos e pela ambição do mundo, situando na esfera da segunda a curiosidade, por serem os olhos, conforme se lê nas Escrituras, os sentidos mais aptos para se obter o conhecimento, sob cujo nome ela costuma disfarçar-se. Quando, mais de 1.200 anos depois, Pascal escreve que a principal doença do homem é a curiosidade inquieta das coisas que não pode saber, está apenas repetindo a opinião do bispo de Hipona, para quem a concupiscentia oculorum era igualmente uma doença. O que causava indignação ao santo doutor era o fato de os homens desejarem perscrutar segredos cujo conhecimento não lhes traria, afinal, nenhum proveito, tão-somente pela paixão de tudo examinar e conhecer - e, mesmo que tais segredos fossem imperscrutáveis, nem por isso desistissem. A esse respeito, diria Montaigne, com muita propriedade: Não há como achar estranho que essa gente, embora desesperando de atingir o objetivo, não tenha renunciado ao prazer de visá-lo. Trata-se de uma doença poderosa, e, movido por ela, o homem desceria ao fundo do inferno, se lhe descobrisse o caminho, ainda que todo ele fosse assoalhado de pez ardente (disse-o nosso Coelho Neto). E, como reparou o grande Eça de Queiroz, se a curiosidade, instinto de complexidade infinita, leva, por um lado, a grudar o ouvido às portas, por outro, leva a descobrir a América.
Mais interessante, porém, do que essa curiosidade da qual a ciência e o conhecimento são beneficiários é aquela que, não sem implicações estéticas e psicológicas dignas de serem estudadas, busca, de preferência aos prazeres da beleza, da harmonia, da suavidade, experimentar o oposto dessas sensações. Também disso tratou Agostinho: Que gosto há em ver um cadáver dilacerado, a que se tem horror? Apesar disso, onde quer que esteja, toda gente lá acorre, ainda que, vendo-o, se entristeça e empalideça. Depois, até em sonhos temem vê-lo, como se alguém os tivesse obrigado a ir examiná-lo, quando estavam acordados, ou como se qualquer anúncio de beleza os tivesse persuadido a lá irem. Acrescentando que o mesmo se dá com os outros sentidos e atribuindo à doença da curiosidade a fascinação pelas cenas monstruosas de superstição mostradas no teatro de seu tempo, o autor das Confissões e de A Cidade de Deus antecipa aqui muitas coisas que, no plano das artes, ampliarão, ao longo dos séculos subsequentes - e, em especial, durante o nosso - o seu espaço e a sua importância, quais sejam o insólito, o grotesco, o incongruente, o irracional, o dissonante, ou seja, tudo aquilo que se opõe a um ideal clássico de beleza e harmonia.
Será preciso dizer que devemos a uma tal oposição o melhor da arte do nosso tempo ou, pelo menos, as suas manifestações mais instigantes? Não fosse por essa patologia que inclina o ser humano a experimentar o nunca antes experimentado, não teríamos o Ulysses e o Finnegans Wake de Joyce, a pintura de Picasso, os ready-mades de Duchamp, o cinema de Jean Cocteau (ou o de Bu¤uel, de David Lynch, de Peter Greenaway), a música concreta de Pierre Henry e a música eletrônica de Stockhausen, as telas de Francis Bacon e as instalações de Damien Hirst, e nem mesmo rock-n-roll nós teríamos. Já pensou que século mais sem graça seria o nosso?





