Normalmente exigente em relação a outros gêneros, devo admitir que assisto a qualquer porcaria se o filme for de terror. Não pretendo aqui (nem tenho competência e energia para tanto) explicar as razões psicológicas dessa fascinação; contento-me em saber que ela é compartilhada por milhões de pessoas que, nesse particular, são tão pouco exigentes quanto eu e que essa modalidade de cinema fantástico está presente nas telas desde os primórdios do cinema. Basta para comprovar esta última afirmação verificar os títulos de alguns filmes que o pioneiro Georges MéliSs realizou ainda no final do século passado: ‘‘A Morada do Diabo’’, ‘‘O Gabinete de Mefisto’’, ‘‘A Caverna Maldita’’, ‘‘O Diabo no Convento’’, ‘‘O Espelho de Cagliostro’’. E não estava sozinho nisso: já em 1897, Georges Hatot faz a primeira versão para a tela da lenda de Fausto e Pathé a sua ‘‘Dança Macabra’’. No ano seguinte, G.A Smith exibe ‘‘Mesmerista’’, ‘‘O Fantasma’’ e a sua versão de Fausto. Desnecessário dizer que esses filmes eram extremamente ingênuos, mas nem por isso deixaram de impressionar as platéias. E, é claro, devem ter dado um bom lucro, pois a produção de filmes fantásticos prosseguiu, a cada ano com um número maior de títulos. Confira na cronologia abaixo alguns dos mais importantes até 1930, valendo observar que, além de filmes de terror, ela também abrange os de suspense, aventuras fantásticas e precursores da ficção científica.
1901: ‘‘Os Sete Castelos do Diabo’’, de Ferdinand Zecca.
1902: ‘‘Contos de Bruxas’’, de G.A. Smith; ‘‘Viagem à Lua’’, de MéliSs.
1903: ‘‘Danação de Fausto’’, de MéliSs.
1904: ainda de MéliSs, ‘‘Fausto’’, ‘‘Viagem Através do Impossível’’( este um filme colorizado) e ‘‘O Judeu Errante’’.
1905: ‘‘Nós País da Magia’’, de Zecca.
1906: ‘‘O Filho do Diabo’’, de Lépine; ‘‘As 400 Farsas do Diabo’’, de MéliSs.
1907: ‘‘O Hotel Assombrado’’ , de Stuart Blackton; ‘‘O Homem Magnético’’, de Louis Feuillade; ‘‘Metempsicose’’, de Zecca.
1908: ‘‘Fantasmagórica’’ de Cohl.
1909: ‘‘A Morte ’’, de Feuillade; ‘‘O Inferno’’, de Padovan e De Liguoro.
1910: ‘‘As Tentações de Santo Antônio’’, de S. de Chômon; ‘‘Fausto’’, de Porter; ‘‘Autek, o Maligno’’, de Alex Hertz.
1911: ‘‘Sonho Negro’’ de Urban Gad; ‘‘O Demônio’’, de Vitrotti.
1912: ‘‘Dança Vampiresca’’ e ‘‘A Noiva da Morte’’, de Auguste Blom; ‘‘No País da Magia’’, de Jasset; ‘‘A Ponte dos Fantasmas’’, de Maggi.
1913: a primeira versão de ‘‘O Estudante de Praga’’, de Stellan Rye; ‘‘Trem dos Espectros’’, de Mario Caserini.
1914: ‘‘O X Misterioso’’, de Benjamim Christensen; ‘‘O Clube dos Suicidas’’, de Maurice Elvoy; ‘‘A Górgona’’, de Caserini.
1915: ‘‘O Golem’’, de Galeen e Wegener; ‘‘Fantasmas’’, de John Emerson; ‘‘A Noiva do Diabo’’, e ‘‘Os Mistérios da Treva’’, de Léon Perret; ‘‘O Romance da Múmia’’, de Gallone; ‘‘Rapsódia Satânica’’, de Oxilia; ‘‘Dorian Gray’’, de Meyerhold.
1916: ‘‘Homunculus’’, de Neuss e Rippert; ‘‘Os Espíritos’’, de Madsen.
1918: ‘‘Os Olhos da Múmia’’, de Lubitsch.
1919: ‘‘Satanás’’, de Murnau; ‘‘O Gabinete do Dr. Caligani’’, de Robert Wiene.
1920: ‘‘O Golem’’, de Wegener; ‘‘O Holandês Voador’’, de Emmanuel Gregers; ‘‘Dr. Jekyll e Mr. Hyde’’, de J.C. Robertson.
1921: ‘‘Folhas Arrancadas do Livro de Sat㒒, de Carl Dreyer; ‘‘A Feitiçaria Através dos Tempos’’, de Benjamin Christensen.
1922: ‘‘Nosferatu’’, de Murnau.
1923: ‘‘O Judeu Errante’’, de Elvoy.
1924: ‘‘O Gabinete das Figuras de Cera’’, de Paul Leni; ‘‘O Inferno de Dante’’, de Henri Otto.
1925: ‘‘O Diabo em Lisboa’’, de Rino Lupe.
1926: ‘‘Metrópolis’’, de Fritz Lang; ‘‘Fausto’’, de Murnau; ‘‘O Fantasma da Ópera’’, de Rupert Julian.
1927: ‘‘O Estudante de Praga’’, de Galeen.
1928: ‘‘A Queda da Casa de Usher’’, de Epstein.
1929: ‘‘Finis Terrae’’, também de Epstein.
1930: ‘‘O Espectro Verde’’, de Feyder.
Minha lista pára por aqui, mesmo porque em 1931 aparecem os clássicos ‘‘Frankenstein’’, de James Whale, e o ‘‘Drácula’’, de Tod Browning, que dão início, nos EUA, a uma ‘‘golden age’’ dos filmes de terror que se estenderá até o início dos anos 60 - o que , por si só, é motivo para uma listagem mais extensa e detalhada que prometo para breve. Quanto aos filmes anteriores que mencionei, muitos deles, infelizmente, se perderam, embora seja possível ver em mostras grande parte dos filmes de MéliSs, bem como dos Zecca, Feuillade, Dreyer, Christensen, Galeen e Leni. Em fitas de vídeo lançadas no Brasil podem ser encontrados ‘‘O Gabinete do Dr. Caligari’’, de Wiene, o ‘‘Dr. Jekyll e Mr. Hyde’’, de Robertson, o ‘‘Nosferatu’’, de Murnau, e ‘‘Metrópolis’’, de Lang.

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