Wilmar Klein
Certa vez imaginei uma casa que funcionasse como um livro,
uma casa para ser lida,
toda ela de poemas distribuídos pelas paredes,
tetos, assoalhos e objetos.
Haveria poesia nos tampos das mesas,
poesia nos pratos e talheres,
poesia em copos e garrafas,
e poesia no forno,
dentro da geladeira,
nas gavetas, lençóis e fronhas,
poesia no encosto do vaso sanitário,
onde me desse na telha e viesse a calhar.
Pensei também, para combinar, em me vestir de poema:
traria versos estampados no paletó, na camisa,
versos na gravata e no chapéu,
versos na calça, nas meias e nos sapatos.
E depois ainda achei que era pouco,
e imaginei levar poemas ao jardim,
às árvores do pomar,
à cerca e à calçada em frente à casa.
Por que não pichar com poemas também o asfalto da rua?
O único incoveniente seria eu ter de mudar a casa,
pois, ao contrário do que ocorre em relação aos livros,
numa casa que todos teriam a curiosidade de ler
não se pode viver.
Partiria da casa e iria morar em outros poemas
- silenciosos -,
mas tendo deixado um rastro de palavras que acabariam por localizar-me.
Cá para nós, não seria uma boa idéia tudo isso.
Melhor ficar com minhas flores
- virtuais, porque não as plantei -,
com o quintal que não tenho
- por isso intocado -,
a varanda que não construí,
as janelas onde só eu vejo a paisagem
- que muda a cada instante do que desfaço.
E quem sabe
- isso sim -
seria poesia maior,
que ninguém escreveu nem escreverá,
igual ao mundo que aí está,
aquém das palavras,
impermeável a elas.
O viver todo o dia
- eis a poesia.
Acordar, bocejar, esticar-se,
lavar o rosto, ver a cara do tempo
e, qualquer que seja,
fazer o que se quer
(que às vezes é fazer nada),
quando se pode
- eis a poesia do viver,
ou qualquer coisa assim.
Cada dia que passa,
desisto um pouco de descrever,
e de crer e de descrer.
Deixo as coisas passarem,
e com elas passo
- transeunte.
A casa é o corpo e todo discurso
- para que ia querer versos?





