Wilmar Klein
As palavras acima correspondem, respectivamente, aos fragmentos 39, 40 e 41 de Xenófanes de Colofão (cerca de 570-528 a.C.) coligidos por Diels. Apenas três simples palavras, que aparecem isoladamente. Nada autoriza a imaginar que, no desaparecido Peri Physeos (Sobre a Natureza), de onde provêm (conservadas a primeira por Pólux, a segunda - em forma dialetal - pelo Etimológico Genuíno Magno e a terceira por Tzetzes numa obra endereçada a Dionísio Periegeta), tivessem alguma relação entre si. E, no entanto (talvez devido a um mecanismo mental - desenvolvido por uns em menor e por outros em maior grau - que leva a estabelecer, entre coisas diversas de uma sequência casual, nexos e articulações que na realidade inexistem), sempre experimentei em relação a estes três fragmentos a sensação de estar diante da medula de um haicai.
Primeiro a cerejeira, árvore que comparece com frequência nesse tipo de poesia. Depois, a rã, quase tão frequente quanto a cerejeira. E, por último, a armadilha. As palavras se articulam em minha mente de modo que me traz à lembrança um célebre haicai do mestre Bashô (passível de muitas traduções - ou, para falar à moda dos irmãos Campos, transcriações - dentre as quais prefiro esta, citada de memória):
O velho tanque.
A rã salta.
Plop!
Uma imagem estática - o tanque - um movimento no seio da placidez - o salto da rã - e algo que, em poesia, equivale ao aparecimento da chama produzida pelo riscar de um fósforo - o rumor de água, a correspondente onomatopéia. Analogamente (porém de maneira ainda mais minimalista), surgem, na articulação dos fragmentos de Xenófanes (que também foi poeta), a placidez sugerida pela imagem mental da cerejeira, o movimento que a figura elástica da rã parece prometer e, pela deflagração de uma associação de idéias com esse salto virtual, a sugestão da armadilha sendo acionada - ou, para criar um certo suspense (se tratasse de um roteiro cinematográfico, esta seria a alternativa preferível), a possibilidade de ser acionada. Instaurar-se-ia assim uma espécie de sintaxe que, unindo elementos díspares, faria pressentir a existência de um perigo oculto (a eficiência de uma armadilha está em não ser visível) em meio à tranquilidade e à beleza representadas pela cerejeira em flor (agora acrescento-lhes flores, pois é florida que costumamos imaginar uma cerejeira) - um perigo para o qual o movimento da rã alertaria, estabelencendo-se uma tensão entre cerejeira, rã e armadilha.
Desnecessário lembrar que tudo isso não é mérito de Xenófanes, e sim da minha atividade enquanto receptor dos fragmentos, dotando-os de uma integração significativa. Do mesmo modo que as notas musicais, por si próprias, não formam uma melodia, também eles, isoladamente, não constituem poesia. Porém, se consigo criar uma correlação entre os fragmentos e essa correlação é capaz de produzir um estímulo estético, então abre-se aí a possibilidade de uma poesia medular. Poesia que, no exemplo oferecido, dispensa ser escrita, pois já o foi - involuntariamente e oculta numa contextualização desaparecida - há cerca de dois mil e quinhentos anos.
(Que dizer das correlações possíveis
entre um realejo e um porco-espinho,
estrelas e talismãs,
um relógio e um pé de couve,
rosas brancas e portas cor de anil,
uma voz de feltro e um gosto violeta,
ossos e labirintos,
arco-íris e bolha de sabão,
ladrilhos e álgebras de sal,
pêras e ferrugem,
um santo e um gramofone,
hieróglifos e árvores em chamas,
um girassol e uma alma sem porto,
um enxame de pedras e um cardume de parafusos?
E por que não, se estamos nos domínios da poesia e pode o fruidor ser poeta sem escrever uma palavra sequer?)





