Wilmar Klein
Enquanto objeto do imaginário e forma de composição literária inspirada no antigo ciclo dos argonautas, a nau dos insensatos surge no Renascimento, tendo como modelo a Narrenschiff do alemão Sebastion Brant. Estava na moda, então - escreve Michel Foucaul em sua História de la folie à lAge Classique- a composição destas naves, cuja tripulação de heróis imaginários, de modelos éticos ou tipos sociais era embarcada para uma grande viagem simbólica que lhes trazia fortuna ou, pelo menos, a figura de seu destino ou de sua verdade. Porém, conforme lembra Laura de Mello e Souza em O Diabo e a Terra de Santa Cruz (São Paulo, Companhia de Letras, 1986), de onde extraio e citação de Foucault, a Narrenschiff teve existência real, levando sua carga de insensatos de um lugar a outro. Era comum, na Alemanha, confiarem-se loucos aos barqueiros, para que os levassem. A medida teria não apenas uma utilidade social, ao banir os loucos de seus locais de origem, mas também as características de um exílio ritual que colocaria os dementes em contato com a água, cuja relação com a loucura, diz a autora acima mencionada, é fundamental no universo onírico do homem europeu. Enquanto o leva para longe, a água purifica o louco; além disso, a navegação abandona o homem à incerteza de sua sorte: cada um é confiado a seu próprio destino, todo embarque é, potencialmente, o último. É para outro mundo que parte o louco, no seu louco bote; é de outro mundo que vem quando desembarca
(Foucault, op.cit.).
Retomando a Narrenschiff enquanto tema simbólico e literário, será sempre interessante verificar as modalidades de seu retorno ao imaginário ao longo do tempo, o que, nem de longe, constitui a pretensão desde texto. Ainda assim, segundo creio, ele não está ausente em obras tão diversas entre si como o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, e o Moby Dick, de Melville, e, modernamente, nas jornadas da nave Enterprise, nos Boeigs, Jumbos e Concordes dos disaster movies da série Aeroporto (cuja diversidade de tipos humanos entre os passageiros é conforme ao espírito da Narrenschiff), bem como no poético Limite, de Mário Peixoto, em Ship of Fools, de Stanley Kramern (baseado no romance de Katherine Anne Porter), e mesmo no recente Titanic, de James Cameron. E, do ponto de vista simbólico, não é incomum enxergar este nosso planeta como uma espécie de nau dos insensatos - e bem avariada, diga-se de passagem. Desde sempre, temos feito por onde justificar essa imagem, e nem é preciso discorrer sobre isso, pois a loucura - tanto a que confinamos nas instituições psiquiátricas quando aquela, cotidiana, da qual participamos e somos agentes - constitui um dos traços mais visíveis e característicos dos bípedes implumes.
P.S.: Lembro agora, vagamente, de uma teoria defendida por alguns astrônomos, que afirmam que o nosso planeta, e assim também o nosso sistema solar, a nossa galáxia e as demais galáxias, os corpos todos do universo, gerados a partir do Big Bang, convergem para um ponto desconhecido. Uma viagem cujo destino é ignorado, e, na voragem dessa trajetória, desapareceremos, sem chegar a esse destino e sequer ter descoberto se, afinal, temos alguma utilidade cósmica. Do que, aliás, eu, particularmente, duvido muito.





