Dentre as muitas versões da lenda de Fausto - das quais a primeira parece ser a do ‘‘Livro Popular’’, editado em Frankfurt am Main em 1587, seguida da de Christopher Marlowe (a peça ‘‘A Trágica História do Dr. Fausto’’), datada do ano seguinte - uma das mais interessantes (e, quanto à qualidade literária, só inferior à versão de Goethe) é a de Friedrich Maximilian von Klinger (1752-1831), cujo drama ‘‘Sturm und Drang’’ deu nome ao movimento literário que, na Alemanha, inaugurou a reação ao classicismo. Chama-se ‘‘A Vida de Fausto, seus Feitos e sua Descida ao Inferno’’ e apareceu em 1791. Nela, Klinger credita a Fausto a invenção da imprensa (não me perguntem como fica Johannes Gutenberg nessa história).
Uma das passagens mais bacanas da obra é aquela, anterior à catábase do herói trágico, na qual Satã comunica à sua corte e comemora a invenção de Fausto, à qual compara à peste. Os livros, que a imprensa permitirá multiplicar, são, na opinião do soberano do inferno (também chamado - e não sem motivo - de senhor deste nosso mundo sublunar), ‘‘propagadores da demência’’, e, graças à sua difusão, profetiza, ‘‘loucura, dúvida, intranquilidade e novas necessidades alastrar-se-ão’’. ‘‘Surgirão’’, ele diz, ‘‘pretensos reformadores do céu e da Terra, cujos ensinamentos, pela facilidade de comunicação, atingirão até a choça do mendigo’’ - isso num ‘‘futuro remoto’’ (porém saber esperar é uma das qualidade do Demônio, conforme em geral demonstram as histórias sobre os pactos feitos com ele e a consequente cobrança).
Mais adiante, na mesma passagem: ‘‘O céu, a terra e Aquele que tememos, as forças ocultas da natureza, os motivos obscuros de seus fenômenos, o poder que determina o rumo dos astros e dos cometas, o tempo incomensurável, tudo que é visível e invisível os homens pretenderão provar, medir e compreender, inventar palavras e números para as coisas inexplicáveis, acumular sistema sobre sistema até que tenham conseguido atrair as trevas para a Terra, onde só a dúvida brilhará, como fogo-fátuo que atrai o peregrino para o pântano’’. - Não é difícil perceber que o alvo de Klinger não é exatamente a imprensa (e os livros, em particular), e sim o racionalismo de seu tempo (que julgava ser possível, com os instrumentos fornecidos e aperfeiçoados pela Ciência, tudo explicar e medir no universo - e, aliás, continuamos pensando assim, não obstante certas manifestações de irracionalismo pseudomístico típicas do final do milênio). Não posso deixar de lembrar, tomando-o como uma espécie de fautor simbólico de toda essa pretensão e arrogância intelectuais, um personagem do poema ‘‘Your Reason’’, de William Blake (1757-1827) (contemporâneo de Klinger, convém reparar). Refiro-me a Urizen, o demiurgo maléfico, o senhor dos sistemas, o inventor da moral que aprisiona, com seus silogismos, os homens, divide-os uns contra os outros e cada um contra si mesmo.
Mas, bem ou mal, os livros nos quais Satã adivinhava tanto poder e tamanhas consequências ainda se inscreviam num ideal de alta cultura, representado pelas grandes obras filosóficas, científicas e literárias. Hoje em dia, basta consultar uma lista de best sellers para, sem esforço, concluir que as coisas já não ocorrem como o Demônio profetizara. Sidney Sheldon, John Grisham , Marion Zimmer Bradley (ainda mergulhada nas brumas de Avalon), os romances espíritas de Zíbia Gasparetto e Vera Lúcia de Carvalho, os livros de auto-ajuda do tipo ‘‘O Sucesso é Ser Feliz’’ (de Roberto Shinyashiki) e ‘‘Almas Gêmeas’’ (de Monica Buonfiglio, que, deixando um pouco de lado os anjos, agora pretende ensinar como se reconhece o par ideal) e bobagens como ‘‘Leonardo DiCaprio - O Romeu Moderno’’ e, ainda sobre o mancebo, ‘‘Leonardo - Um Álbum com Histórias e Fotos’’ (ambos escritos por uma tal Grace Catalano, que deve estar engordando significativamente a sua conta bancária) não semeiam a peste, e sim a banalidade, e constituem excelentes exemplos da pobreza espiritual deste nosso tempo (se não forem suficientes, ligue a tevê ou o rádio).
Em todo caso, como por variados meios se chega ao mesmo fim, sejam bem-vindos ao pântano.

mockup